unnamed - Terroristas deixam rasto de destruição na Vila de Macomia e apagão no centro e norte de Cabo Delgado

Terroristas deixam rasto de destruição na Vila de Macomia e apagão no centro e norte de Cabo Delgado

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Rasto de destruição. É o que os residentes da vila de Macomia encontraram quando retornaram às suas casas, depois de passarem três dias e três noites nas matas fugindo dos ataques de quinta-feira, sexta-feira e sábado. Sem energia eléctrica, sem a habitual azáfama de pessoas, a vila está irreconhecível. Muitas infra-estruturas públicas e estabelecimentos privados destruídos e outros simplesmente reduzidos a cinza. Há registo de pelo menos oito civis mortos.

O ataque à vila sede do distrito de Macomia era uma questão de dias. Depois das vilas do litoral, nomeadamente Mocímboa da Praia e Quissanga, em finais de Março, os terroristas entraram para o interior de Cabo Delgado e atacaram a vila sede do distrito de Muidumbe, na primeira semana de Março. Na noite de quarta para quinta-feira da semana passada, foi a vez da vila de Macomia, localizada na Estrada Nacional Nº 380 (liga Pemba a Palma), a mais de 50 quilómetros do litoral.

A incursão pelo interior mostra que os terroristas estão a alargar o seu domínio territorial sobre a província de Cabo Delgado. Se antes lançavam ataques contra vilas e aldeias do litoral maioritariamente habitado por comunidades islâmicas mwanis, agora fazem incursões para o interior da província habitado por comunidades makondes, um grupo etnolinguístico que teve um papel decisivo na Luta pela Libertação de Moçambique.

Os relatos e as imagens sobre este ataque ainda são escassos devido às dificuldades de comunicação com os residentes locais: os terroristas sabotaram a subestação da Electricidade de Moçambique (EDM), localizada à entrada da vila, deixando o centro e norte de Cabo Delgado às escuras. Inaugurada em 2011, a subestação de Macomia está conectada, através de uma linha de alta tensão de 110kV, à subestação de Awasse (distrito da Mocímboa da Praia), responsável pelo fornecimento de energia aos distritos de centro e norte de Cabo Delgado.

O Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD) apurou que os terroristas posicionaram-se nas proximidades da vila de Macomia às 23H00 de quarta-feira, mas só a partir da 01H00 da madrugada de quinta-feira começaram a disparar o ar. A maioria dos residentes locais não se preocupou com os disparos, pois estava convencida de que se tratava de mais uma acção das Forças de Defesa e Segurança (FDS) posicionadas na vila. Mas há quem, por precaução, se colocou de abalada para as matas.

Mas o perigo estava por vir: Os insurgentes espalharam-se por todos os locais estratégicos e ocuparam as principais saídas da vila, incluindo na Estrada Nacional Nº 380. A partir das 05H00 começaram a invadir a vila, onde destruíram e vandalizam muitas infra-estruturas públicas, com destaque para a subestação da EDM e Centro de Saúde de Macomia, que estava em obras de reabilitação.

“Começamos a ouvir muitos tiros. As forças do Governo tentaram responder, mas estavam em desvantagem porque também foram surpreendidas pelos al-Shabab”, contou uma testemunha. Por volta das 07H00, os helicópteros da Dyck Advisory Group (DAG) começaram a sobrevoar a vila de Macomia, mas enfrentaram dificuldades na identificação do inimigo. Os terroristas entraram vestidos do uniforme das FDS e misturavam-se com a população.

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ATAQUE ACONTECEU UM DIA DEPOIS DE O GOVERNO RECONHECER QUE A SITUAÇÃO CONTINUAVA COMPLEXA

Um dia antes do ataque à vila de Macomia, o Ministro do Interior, Amade Miquidade, tinha informado à Assembleia da República que a situação em Cabo Delgado continuava complexa, porque os terroristas recorriam a táticas de guerrilha, “vergavam” o uniforme das FDS, usavam a população como escudo e drones para fazer o reconhecimento. E foi exactamente o que fizeram-na vila de Macomia, dificultando a resposta das FDS. “Os helicópteros começaram a disparar sobre a vila, mas acabaram se retirando”.
Já com a vila praticamente controlada, os terroristas começaram, a partir das 15H00, a saquear bens, a vandalizar e a queimar estabelecimentos comerciais e habitações. “Os bens roubados saíram da vila em duas viaturas também roubadas. Houve muita destruição na vila. Muitos carros queimados, o mercado local estava em cinzas. Parece que o banco (agência do BCI) também foi invadido”, contou outra testemunha residente no bairro Nanga, que disse ter contabilizado pelo menos oito corpos. Informações ainda por confirmar apontam para a destruição da Escola Secundária local, da Direcção Distrital da Educação, do Comando Distrital da PRM, e do palácio do Administrador.

Os terroristas permaneceram em Macomia até sexta-feira e alguns passeavam pelas ruas da vila de motorizadas. “Na sexta-feira, os tiros retomaram das 05h00 até às 16H00 horas e os al-Shabab continuavam a queimar casas e bancas. A resposta dos militares não foi forte, porque os al-Shabab juntavam-se com a população. Há militares que tiraram o uniforme, enterraram as armas e fugiram com a população”.

Há relatos de pessoas que passam três dias escondidas nas matas. “Passamos muito mal. Tivemos que dar mandioca e água suja às crianças. Estamos com medo de voltar à vila e não sabemos onde ir. Às vezes os helicópteros disparavam contra a população que estava em fuga. Não sei se houve mortos”, contou outra vítima escondida nas matas.

Até ontem, terça-feira, havia muitas famílias que ainda não tinham retornado à vila de Macomia. “Fugimos e fomos sair em Meluco (distrito que faz limite com Macomia). Caminhamos durante dois dias pelas matas, sem água e sem comida. As crianças estão a passar mal. Não temos forças para volta a pé à Macomia, precisamos de ajuda”, relatou um professor primário.

Além da vila de Macomia, os terroristas atacaram o Posto Administrativo de Chai, local que simboliza o início da Luta de Libertação Nacional, e mais duas aldeias do mesmo distrito e da Mocímboa da Praia. Na localidade de Awasse, os terroristas filmaram vídeos onde exibem uma viatura de combate pertencente às FDS.

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FILIPE NYUSI “VOA” PARA CABO DELGADO PARA ACOMPANHAR A SITUAÇÃO

Devido ao ataque, o Presidente da República teve de viajar para Cabo Delgado na sexta-feira para reforçar a moral das FDS. No sábado, Filipe Nyusi reuniu com as altas patentes das FDS, incluindo os Ministros da Defesa Nacional e do Interior, no Posto do Comando Operacional – Norte, em Mueda. Falando à televisão pública (TVM), o Presidente da República lamentou o ataque à vila de Macomia, mas disse que as FDS abateram alguns líderes dos terroristas que actuam em Cabo Delgado.

Entretanto, as FDS nunca apresentaram os cabecilhas dos terroristas que reclamam ter abatido nas suas incursões, contrariando uma prática recorrente em muitos países que consiste na exibição dos chamados troféus de guerra.
Com o recrudescimento os ataques, agrava-se a crise humanitária em Cabo Delgado, com cerca de 200 mil deslocados a procurarem refúgio em distritos mais a sul da província.

Outros seguem para Nampula, sobretudo para a vila de Namialo, no distrito de Meconta: são cerca de 600 acolhidas em casas de familiares e outras arrendaram habitações. Há casos de famílias que chegam a acolher cerca de 20 pessoas, num cenário em que falta um pouco de tudo, com destaque para água potável e comida.

A aglomeração de pessoas em pequenas casas aumenta o risco de propagação da covid-19, tendo em conta que os deslocados fugiram de Cabo Delgado, província com o maior número de infectados. E chegam a Nampula, província que desde ontem regista a maior taxa de positividade: foram 47 casos positivos da covid-19 anunciados nesta terça-feira pelas autoridades da Saúde. Ainda assim, a maior preocupação dos deslocados é garantir tecto, água e comida às suas famílias, enquanto aguardam por alguma orientação do Governo.