vlcsnap 2020 05 08 11h29m15s965 - O isolamento está a ser uma farsa- Pesquisador

O isolamento está a ser uma farsa- Pesquisador

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Para esmiuçar a realidade que Moçambique nos dias que correm, o Jornal Txopela conversa esta semana com o antropólogo e pesquisador Jeremias Messias, ao nosso Jornal o Director Executivo da organização não-governamental Eghumi fala do decreto presidencial que exonera algumas liberdades aos cidadãos, e também aborda sobre a constituição do novo governo provincial liderado por Pio Augusto Mato.   Acompanhe a conversa tal como ela foi, nas linhas que se seguem:

JT: Uma pandemia está a desafiar os governos de todo o Mundo, o que se pode esperar de Moçambique da forma de gestão deste problema de saúde pública?

 

JM: A questão de coronavírus é uma questão muito interessante. É que ao nível global acham até certo ponto caricato o que estamos a fazer com relação a prevenção. As medidas preventivas operacionalizadas ao nível da província da Zambézia [por exemplo], são medidas de colocação de um balde com água para lavagem das mãos.

A água não pode ser do FIPAG, tem que ser água tratada e o sabão não pode ser este produzido localmente, até pirata de uma certa forma.

Numa forma conjuntural as medidas tomadas ao nível provincial de prevenção e proteção contra o novo coronavírus são medidas muito bizarras. Alias, os indicadores de prevenção da própria doença são múltiplos, desde o contacto social, espaçamento e circulação da moeda.

Partindo do pressuposto da circulação da moeda, tendo em conta o nível económico que temos, como pessoas residentes na província da Zambézia, não temos mínimas condições para a prevenção e proteção contra a COVID-19.

A quarentena ou isolamento está a ser uma farsa porque o contacto permanente numa abordagem cultural, antropológica, no dia-a-dia as pessoas se cumprimentam, se dão beijos e namoriscam, não estamos a levar medidas globais de saúde de proteção e educação.

A educação da COVID-19 aparece nos Mídias. Infelizmente muita gente que vive nas zonas rurais não tem contacto com televisão, rádio e jornal.

A vasta maioria que vive nas zonas rurais são pessoas que não tem um nível de educação que percebem que coronavírus pode estar connosco lactente e pode eclodir. As pessoas pensam até hoje, infelizmente, numa conversa que eu tive a velha Zubaida, disse-me que é doença de branco e nunca matou preto aqui. Então ela me disse que é “doença de rico e não preto e pobre como você”.

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JT : Há uma polémica que vai surgindo no meio desta questão de encerramento das Escolas públicas e privadas e as alternativas encontradas como aulas online, televisão e radio ….

JM:De facto, desde 1995, no processo dos primeiros passos para nachinguenização de Moçambique, as escolas tiveram que ser encerradas. Até a COVID-19 despertou as Tic’s e na metodologia de saber fazer e saber ser como estudante.

Os estudantes já estão a ficar preocupados. As escolas sempre estiveram encerradas não pelo coronavírus, o paradigma actual é que obriga a nós estarmos no mundo global. Temos que usar Tic’s para produzir conhecimentos.

O Chefe do Estado trouxe um discurso que no consciente coletivo, a esperança era de isolar Maputo e Cabo Delgado. Era essa nossa percepção e nosso consciente coletivo que estava harmonizado com o discurso pré-determinado.

COVID-19 pode ser controlada!

JT: Quais são as possíveis soluções que julga eficazes para combater a doença ?

JM:A pandemia desafia todos os obstáculos de proteção social. É uma doença que até certo ponto é mesquinha. Alias, a cólera é mais intensa que a COVID-19. Nós não precisamos de quarentena porque uma simples cólera e malaria controlamos.

As dinâmicas de actuação da COVID-19, permitem que seja uma doença simpática que até certo modo simpática porque a cólera é que devasta a sociedade mesmo sendo endémica.

A COVID é pandemia porque ataca o mundo global. Nós temos doenças que atacam a Africa e não são consideradas de pandemia e as que atacam os países do primeiro mundo são chamadas de pandemia.

Na verdade nós já estamos mortos! Estamos mortos! Não temos proteção social. Fingimos estar a fazer quarentena enquanto não há quarentena e nem isolamento algum. E tem focos de violência.

JT: A policia está a ser largamente contestada pela sua actuação neste período de Estado de emergência ….

JM: Existe a dinâmica do excesso de zelo, o oportunismo que estão a determinar o modo atuante da própria polícia. A própria polícia invade casas e violenta até certo ponto. Um dos exemplos é o Razak que foi violentado na Beira e que culminou com a morte dele.

Eu acho que a pandemia não pode ser um elemento de oportunismo em todos os níveis. Oportunismos de rentabilização da economia. O problema para a própria miserável actuação da polícia são os policiais que estão a massacrar e extorquir as pessoas que infelizmente não tem como viver.

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JT: Há uma possível solução a ser avançada por Madagáscar e ratificada por alguns países Africanos, como olha esta situação?

JM:A Africa é exótica! No advento do HIV/SIDA em 1981 na massificação, a Africa introduziu a batata africana como um medicamento de cura e COVID é uma extensão das politicas globais de prevenção. E os modos de intervenção da Africa como um continente exótico, contrasta com as dinâmicas científicas.

Se a Africa trás esta medida de prevenção, sobretudo Madagáscar, se não foi testada e não foi catalogada ao nível africano tendo em conta a ecologia que é o próprio contexto, se não for uma medida cientificamente aprovada fica em dúvida essa questão.

O importante é que não pode haver uma receita sem que seja consensual se não pode ser um veneno.

 

JT: Pio Matos constituiu seu governo esta semana, o que se pode esperar?

JM: A questão de eleição democrática de Pio Matos entre aspas. O intervalo das eleições deixou muitas dúvidas do processo de legitimação da vitória esmagadora retumbante.

A minha opinião neste expediente de governação deixa muito a desejar.

Primeiro porque no advento das eleições, a figura da Secretaria do Estado não estava patente e depois da eleição trazem uma figura nova com mesmos poderes, porque até os poderes se confundem. Todavia, não concordo com a existência da figura de Secretaria do Estado.