CHIPOSSE - Educação em Moçambique nos tempos de COVID-19: Uma Reflexão centrada nas Escolas Rurais

Educação em Moçambique nos tempos de COVID-19: Uma Reflexão centrada nas Escolas Rurais

Face a pandemia (COVID-19) que assola o mundo inteiro, o governo em geral tem se redobrado na criação de estratégias de modo a conter a propagação rápida da COVID-19. Moçambique não sendo uma ilha isolada, veio a declarar estado de emergência ao nível nacional, dentre as medidas anunciadas pelo Chefe do Estado, consta a suspensão de aulas em todos os estabelecimentos públicos e privados, desde o ensino pré-escolar até ao superior, e ainda a redução de número de pessoas nos eventos de carácter social, salvo actividades de interesse estritamente público e uso obrigatório de máscaras nos aglomerados, como é o caso dos mercados.

Perante a medida de encerramento das aulas, o Ministério de Educação e Desenvolvimento Humano, foi desafiado a criar estratégias, de modo a garantir a continuidade das aulas através de outros mecanismos/plataformas. Dentre eles: aulas na telescola, rádios comunitários, redes sociais como whatsapp. E é aqui, onde centra a nossa reflexão perante as zonas rurais.

Portanto, num passado recente, o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano, descartou a possibilidade de anulação do ano lectivo 2020, “Aí nós não consideramos o ano lectivo perdido, mas estamos aqui no campo das suposições porque não sabemos que orientações virão mais adiante” afirmou Gina Guibunda, porta-voz do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano, acrescentando que caso se prolongue o Estado de Emergência “continuaremos a ministrar as nossas aulas, usando, também, todas estas plataformas”. (retirado no jornal: http://opais.sapo.mz/covid19-ministerio-da-educacao-descarta-anulacao-do-ano-lectivo-2020#).

No entanto, as plataformas usadas para as aulas são a televisão, a rádio, internet e fichas de exercícios e apoio que devem ser monitoradas pelos pais e/ou encarregados de educação que, segundo as autoridades da Educação são um sucesso, mas não se sabe se os alunos estão ou não a acompanhar as aulas. Todavia, estudos moçambicanos, nos últimos anos mostram que os pais e/ou encarregados de educação têm muita dificuldade em fazer acompanhamento dos educandos.

Os 8.3 milhões de alunos moçambicanos, sendo do ensino primário e secundário, estão distribuídos em vários pontos do país, no entanto, não estão apenas em Maputo, Beira, Quelimane, ou seja, nas capitais dos país. De acordo com INE, (2017), indicou que:

  • 6% da população vive no meio rural, apenas 33, 4%, vive no meio urbano; 69,8% vivem em palhotas; apenas 22,2% dos moçambicanos têm acesso a energia eléctrica, portanto, os restantes, recorrem a Baterias, Velas, Petróleo/parafina, Pilhas entre outras fontes de energia; 35% têm rádio nas suas casas e 29,1% têm TV. Em suma, 70.9% dos moçambicanos não têm TV e não poderão acompanhar as aulas na telescola nem na rádio.

Porém, além dessa realidade que o Instituto Nacional de Estatística mostra, temos moçambicanos sem condições para tirar cópia, alguns pais não conhecem o que é uma máquina fotocopiadora, em alguns cantos do país, uma cópia chega a custar entre 3 a5 meticais, sem falar das fontes de rendimento dos mesmos, actualmente 1kg de milho custa entre 10 a 12 meticais. Então quantos kg de milho serão necessários, para copiar todas as disciplinas necessárias? E alguns vivem entre 100 a 180 km, para chegar a vila de modo a ter acesso serviços de género. A título de exemplo, do Posto administrativo de Chire para vila de Morrumbala, província da Zambézia. E dai, podemos imaginar o custo de transporte nessa distância.

“Os professores, em grupos pequenos, têm ido às escolas, elaborado textos de apoio assim como fichas de exercícios e os pais e/ou encarregados de educação são contactados para irem lá buscar e depois fazem chegar aos seus filhos”, explicou a porta-voz do pelouro da Educação, revelando, igualmente, que foi definido que uma parte do valor do apoio directo às escolas será usado para apoiar “os alunos que não tenham capacidade de poder reproduzir essas fichas”, (retirado no jornal: http://opais.sapo.mz/covid19-ministerio-da-educacao-descarta-anulacao-do-ano-lectivo-2020#).

  • E os centros de formação de Professores vulgo 10+ 1? Que precisam muito conciliar a teoria e a prática através de estágios pedagógicos nas escolas, sabendo que a formação em média dura 10 meses (Fevereiro a Novembro);  
  • Será que os professores estão no terreno ou seja, vão campo deixar as fichas? Se sim quem está acompanhar essas actividades até a base?
  • Até que ponto os serviços distritais de educação estão cumprindo essas orientações?
  • Não estaríamos a cometer exclusão dentro da inclusão, perante a realidade socioeconómica do país?
  • Que tal aceitarmos que o ano está comprometido e por via disso, estudarmos outras possibilidades?

Em relação ao Apoio Directo às Escolas, infelizmente no terreno o nome mudou, passando a ser chamado “Apoio Directo dos Directores e ás Esposas” ou seja, passou de gestão pública para privada em algumas escolas. E nem está disponível para todas as Escolas este valor até então.

A Educação é direito de todos e dever do Estado e da família também, devendo ser garantida uma educação digna, pública e de qualidade, sendo este considerado como um direito fundamental assegurado a todos os cidadãos. A qualidade do ensino deve ser guiada por princípios, norma e objectivos estabelecidos constitucionalmente. O acesso ao ensino é direito público subjectivo e o seu não oferecimento pelo Poder Público, ou sua oferta insuficiente e irregular, poderá acarretar responsabilidade da autoridade competente. No entanto, Educação é uma palavra pequena, singela e ao mesmo tempo com dimensões imensuráveis, devido a sua amplitude que se concretiza na própria existência humana.

A pandemia COVID-19, pode dizimar vidas por um certo período, mas o fracasso na educação, sobretudo na tomada de decisões, poderá dizimar vidas para sempre silenciosamente, e sem vacina muitos menos diagnóstico. Aliás, Moçambique pode viver nessa pandemia por toda vida. O actual estágio do capitalismo, pautado na revolução científico-tecnológica e na globalização, denota relevância ainda maior à Educação.

Como o ano não estar comprometido, enquanto milhares de moçambicano estão em casa sem aulas, sem TV, Rádio, muito menos fichas de exercícios?
Porém, os erros que temos visto na disseminação dos conteúdos na telescola, na rádio, são normais sim, (confundir ordem crescente com decrescente…..), são professores que os nossos IFPs…. oferecem ao país. Aliás, este é o dia-a-dia dos alunos nas escolas públicas em particular. E assim vamos construindo um Moçambique novo, glorioso e próspero.

 

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