terrorismo em Cabo Delgado - Moçambique em perigo

Moçambique em perigo

em OPINIÃO por

Moçambique é, neste momento, quase um Estado falhado e pode deixar de existir na extensão total do seu território.

“Os bandidos chegaram e saíram da vila da Mocímboa da Praia em apoteose e partiram por sua livre e espontânea vontade, sem que confronto nenhum se registasse. As forças de defesa de Moçambique, desde o começo até ao fim da tomada de Mocímboa, sempre estiveram ausentes, segundo relatos pungentes das nossas fontes.” Assim escreveram Nazira Suleimane e o destemido e aguerrido jornalista Estácio Valoi sobre uma incursão dos grupos armados, habitualmente chamados BAs (Bandidos Armados), na vila de Mocímboa, no Norte de Moçambique, no passado mês de Março.

Trata-se de grupos islâmicos, e estes assaltos têm vindo a ser levados a cabo desde 2017. Ultimamente, intensificaram-se.

Agora, já não são meros aglomerados rurais que sofrem os ataques, mas sim zonas urbanas. Nos tempos mais recentes, estas forças terroristas têm aumentado enormemente o ritmo das suas investidas, tal como têm diversificado os métodos das operações. Neste momento, chegam a ocupar temporariamente sedes de distrito nas localidades de Mocímboa da Praia, Muidumbe e Quissanga.

É muito provável que esta mudança de estratégia obedeça a uma velha táctica de conquistar e ocupar terreno. Foi a estratégia que os imperadores bizantinos, por exemplo, utilizaram no século X para voltar a tomar conta da Síria islâmica. Primeiro, lançam-se raides para avaliar a capacidade e as forças do inimigo, e estas incursões sucedem-se, não acabando na conquista definitiva do território, mas sim em conquistas e saques provisórios, infundindo o medo nas populações e desgastando o inimigo. Até que, um dia, se calibra bem a força do inimigo e se lança o ataque final que permite ocupar o espaço e só então exercer aí a soberania.

Na metodologia dos terroristas islâmicos vislumbra-se o mesmo propósito: desgastar as forças oficiais de Defesa e Segurança, avaliar o seu grau de resistência, ver como reage a população. Os ataques vão-se suceder e aumentar, até que os terroristas se sintam seguros e ocupem o território, muito provavelmente acabando por declarar a República Islâmica do Norte de Moçambique.

Este cenário é muito plausível, porque até ao momento a reacção das forças de Defesa e Segurança moçambicanas tem sido somente fugir. Muitas vezes, aparentemente, os soldados despem as fardas e misturam-se com os civis, para não serem identificados, e não oferecem resistência. Por outro lado, e infelizmente, as populações acabam por se adaptar à situação, como se vê no relato acima transcrito.

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O Norte de Moçambique é rico em gás natural e em rubis, e a verdade é que faz a fortuna de alguns. No entanto, a maioria da população vive na miséria. Este cenário é, obviamente, campo fértil para o cultivo da indignação e da revolta islâmica contra o poder central.

Ora, tendo em conta a fragilidade demonstrada pelas forças de Defesa e Segurança, bem como a miséria e exploração a que a população tem sido submetida, não se torna difícil compreender que estamos perante terreno fértil para o sucesso de uma insurreição com base islâmica que divida o país e se apodere desta região.

De Maputo, as notícias que chegam são geralmente más e de incapacidade. O presidente Filipe Nyusi não consegue controlar a corrupção devastadora que domina o país, nem a situação militar no Norte do país. Aparentemente, socorreu-se de mercenários russos da companhia Wagner, ligada ao antigo chefe de cozinha preferido de Putin, Prigozhin, para combater os insurgentes. No entanto, o que várias fontes afirmam é que esta iniciativa não correu bem e que os russos sofreram pesadas baixas. Na verdade, em termos militares, eles estão mais habituados às zonas do Médio Oriente e não à África tropical. Em Setembro de 2019, pouco depois de esses mercenários terem chegado a Moçambique, começaram a surgir os primeiros relatos de que os russos eram facilmente emboscáveis, e depois mortos e decapitados. Certo é que a sua intervenção não diminuiu a actividade terrorista, pelo contrário. Agora, fala-se também de outras empresas de mercenários ligadas ao Zimbabué ou à África do Sul. Parece que o Estado moçambicano não tem força para resolver por si o problema, e tem de recorrer a mercenários; mas esta estratégia tem-se revelado sem sucesso até ao momento.

O problema adicional é que Nyusi é um líder fraco. Ao contrário de João Lourenço, não foi capaz de se libertar da influência de Guebuza e da clique que congeminou o famoso escândalo das “dívidas ocultas”. A FRELIMO está dividida entre os que, por um lado, vêem em Angola um modelo a seguir e reconhecem a necessidade de “cortar” definitivamente com o passado e, por outro, aqueles que apostam no imobilismo, não percebendo que assim estão a condenar o país.

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Nyusi tentou colocar os seus aliados em pontos-chave, mas perdeu as eleições internas para os próximos do grupo de Guebuza, e por isso o país anda em círculos, sem progredir verdadeiramente.

Vários factores externos concorrem igualmente para esta situação.

Note-se que a União Europeia continua sem apoiar Moçambique. “Não haverá retomada de apoio orçamental nem novo dinheiro directo ao Governo”, garantiu o representante da UE em Maputo, António Sanchez-Benedito.

Ao mesmo tempo, a ExxonMobil voltou a adiar a sua decisão final sobre o investimento no grande projecto de gás natural em Rovuma.

 

Não haja dúvidas de que a desagregação do Estado em Moçambique é uma consequência possível deste estado de coisas. Estamos perante uma perigosa conjugação: terroristas islâmicos com ideais expansionistas e territorialistas, como aliás é timbre da ideologia do Estado Islâmico a que poderão estar ligados, e uma liderança fraca que não se consegue libertar dos fumos de corrupção nem colocar ao seu serviço um exército inoperante.

É justamente aqui que Angola poderá servir de apoio, e em duas frentes. Em primeiro lugar, pode fornecer forte auxílio num efectivo combate à corrupção, transmitindo ao presidente de Moçambique os ensinamentos e as práticas que tem vindo a recolher no seu próprio país. Em segundo lugar, pode colaborar no treino e aconselhamento das forças moçambicanas para agir contra os terroristas.

A situação neste país é mais grave do que parece, e necessita de rápida intervenção por parte dos aliados africanos de Moçambique.

RUI VERDE (Maka Angola)