Jessemusse Cacinda11111 - Os condenados pelo voto

Os condenados pelo voto

em CRÓNICA/DESTAQUES por

“Mamã vai morrer…”

Pensa Dr. Hadjib cujos olhos chovem lágrimas que indundam a baixa da vila de Memba ao ver sua querida mãe, Dona Maimuna, ser derrotada por um depressão. A senhora que ficou conhecida na vila por ter sido uma das maiores compositoras dos cânticos de tufo interpretados pela orquestra que animou a campanha eleitoral de S.Excia Relaxa tinha visto uma onda vermelha cobrir seus olhos.

  • Mano, vamos levar mamã ao curandeiro né?
  • Como curandeiro, primeiro vamos ao hospital – responde Dr. Hadjib.

  • Que hospital mano?

  • Esta doença só pode ir ao hospital distrital

  • Esquece mano, nunca há medicamentos lá – Atija não quer saber nada de conversas de televisão e quer que a mãe tenha consulta na palhota do Khusupa, um dos curandeiros mais respeitados na baixa da vila.

O taxista Khapulo Khoropa, mais conhecido por K.K oferece seus serviços em jeito de responsabilidade social, mostra agilidade e num piscar de olhos, Dona Maimuna tem a vida visualizada no espelho do Dr. Khusupa.

Enquanto a maestra do tufo definha, a curiosidade roça a alma da vila de Memba. Especula-se sobre os males da diva da arte e da política. Não se compreende como uma depressão se aloja no corpo de uma mulher que tem tudo para celebrar. Afinal, está-se numa semana da grande vitória do seu partido e candidato com números coreanos.

De regresso a casa, Atija cita de memória um texto que viu escrito no espelho do curandeiro Khusupa:

A nossa mãe é uma gaiola. Gerou vários pássaros que foram pousar em outros ninhos alimentando-se de comida diferente. Os donos do milho ficaram nervosos e prenderam um de seus pássaros por alimentar-se de comida alheia.

  • Estes curandeiros nunca fazem um discurso objectivo – irritado comenta Dr. Hadjib.
  • Mano, afinal lá na escola dos doutores não explicam o que meu professor de Português disse ontem na última aula?

  • O que o teu professor disse?

  • Que a adivinha do espelho funciona com metáfora. Cabe ao paciente analisar e interpretar.

  • E conseguiste fazer alguma interpretação?

  • Claro meu irmão. Nós somos pássaraos gerados na mesma gaiola. Cada um seguiu o seu destino, um deles é o nosso irmão que foi estudar no Instituto Superior Politécnico de Gaza e que andava envolvido em actividades políticas pelo partido “Nova Democracia” e que acabou sendo detido.

  • Então é mesmo assunto de hospital.

  • Sim. Melhor a levarmos a Nacala. Aproveitas e viajas a Xai-Xai para tentares ajudar na libertação de nosso irmão.

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Dona Maimuna e seus dois filhos seguem viagem a Nacala para que sejam atendiddos no Hospital Geral daquela cidade portuária. Os pneus do canter deslizam sobre a terra vermelha de saiboro, pássaros, massaniqueiras, palhotas e sorriso de crianças descalças formam a paisagem de uma viagem que deveria ter sido voluntária.

Uma brigada multidisciplinar de todas as forças policiais e paramilitares montou o seu posto móvel num dos pontos da estrada Nacala – Memba e está a exigir licença de transporte público de passageiros numa estrada onde só circulam camionetas devido às suas condições de transitabilidade.

O motorista imobiliza a camioneta e liga a um colega seu que opera na mesma rota para saber como os polícias operam, tendo lhe sido informado que é possível seguir viagem mesmo sem os referidos documentos, bastando pagar três mil meticais numa rota cuja receita é de dois mil meticais.

Desesperado, o motorista opta em usar um desvio de cerca de 100Km tendo levado mais tempo em relação ao esperado. Durante a viagem, os passageiros lamentam o que aconteceu ao filho de Dona Maimuna que foi detido por pertencer a um partido diferente do de sua mãe – “espero que os médicos de Nacala a curem” – um velho de barba grisalha demonstra sua solidariedade. A distancia dá espaço a mais conversas com passageiros a achar curioso um Auto-Stop logo a seguir as eleições.

  • Já votamos, ganharam e agora estão nem ai para o nosso sofrimento – disse uma senhora enquanto o motorista da camioneta pisa no travão para comunicar a morte de Dona Maimuna.