A geografia do voto em Moçambique: Renamo domina a região Centro e a Frelimo a região Sul

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Um estudo divulgado recentemente pelo Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), uma organização moçambicana independente, de investigação social e econômica na sua serie anual ” Desafios para Moçambique” edição 2019, o acadêmico Luís de Brito, escreve sobre o “multipartidarismo, geografia do voto e descentralização em Moçambique”. Onde apresenta a implantação diferenciada dos “territórios eleitorais” dos dois principais actores políticos, a Frelimo e a Renamo.

O acadêmico defende que a Frelimo tem um domínio marcado nas provinciais do Sul (Maputo, Gaza e Inhambane) e nalgumas regiões das províncias do extremo Norte (Cabo Delgado e Niassa), enquanto que a Renamo tem uma presença dominante em amplas zonas das províncias de Manica, Sofala, Zambézia e Nampula; embora haja um relativo equilíbrio entre estes dois partidos que dominam a cena política moçambicana, com uma ligeira vantagem para a Frelimo. Luís de Brito considera que, apesar das variações que se registam de eleição para eleição, cada um dos partidos tem um território próprio, relativamente bem definido, que não registou mudanças profundas desde o início das eleições multipartidárias até hoje.

As análises do acadêmico são baseadas em mapas de votações existentes, de ambos partidos por distrito, de 1994 a 2009. O autor entende que, a demarcação regional do voto reflecte, em grande medida, a história do país, das suas clivagens e das oposições entre grupos, que por vezes remontam aos finais do século XIX. Segundo ele, da história mais recente, é possível reter que uma boa parte dos principais dirigentes históricos e numerosos quadros da Frelimo são oriundos das províncias do Sul e do extremo Norte, tendendo a favorecer o processo de identificação das populações dessas zonas com este partido.

O autor lembra ainda que, ao longo da luta pela independência, foram muitos os quadros da Frelimo originários das províncias centrais que foram expulsos ou abandonaram o movimento, reforçando assim a desconfiança mútua entre elites do Sul e do Centro e o facto de que foi a partir do Centro do país que se formou e desenvolveu a Renamo.
Deste modo, o autor justifica que o voto em favor da Renamo, cujo berço histórico se situa justamente na região central do país, e que tem especialmente braço importante em Manica, Sofala e parte das províncias da Zambézia e Nampula, terá dado corpo a um sentimento de exclusão – ou marginalização – em relação ao Estado da Frelimo compartilhado pela população e pelas elites locais.

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Além da geografia do voto, o autor chama a atenção para um outro fenómeno eleitoral de relevo: a abstenção. Ele mostra que, depois de uma participação forte nas eleições de 1994 e 1999, marcadas por um nível baixo de abstenção (respectivamente 12 % e 32 %), mais de metade dos eleitores inscritos deixou de votar, tendo a abstenção sido de 64 % em 2004, 55 % em 2009 e 51 % em 2014. O autor refere ainda que a abstenção apresenta como padrão o seguinte: enquanto nas eleições de 1994 e 1999 ela não mostra nenhuma relação espacial com a votação dos partidos, a partir de 2004 é evidente que se concentra em zonas de forte votação da Renamo, com destaque especial para as regiões muito populosas da Zambézia e de Nampula, penalizando assim de maneira particular os resultados deste partido Os altos níveis de abstenção registados, aos quais ainda seria necessário acrescentar os cidadãos não inscritos, indicam uma distanciação dos cidadãos em relação à política e às eleições que constitui um verdadeiro desafio democrático para o país, garante o autor.