MC Chamboco: O rapper das dividas ocultas de Moçambique

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Acredita no poder da juventude para impulsionar o desenvolvimento do Pais, e refere que o Hip-Hop tem sido a sua arma de combate para exigir mudanças pro-democraticas e politicas consentaneas aos anseios da juventude. MC Chamboco é o nome artistico do jovem musico e activista social André Cardoso, nacionalmente notabilizou-se na esfera publica por uma rubrica no Facebook, denominada RAP FACE onde atraves de videos de rimas criticou incisivamente os raptos, a falta de uma rede hospitalar condigna, habitaçao e a falta de oportunidades de emprego para os jovens entre outros temas. Conversamos com o artista no habitual classico pergunta e resposta, acompanhe nas linhas que se seguem a entrevista tal como ela foi:

 

JT: André Cardoso ou MC Chamboco? podemos dissociar um do outro?

AC: Olha, a linha que separa estas duas personalidades é bastante ténue, e por via disso torna-se muito difícil separar. Andre Cardoso é um jovem activista social, bastante interessado na defesa dos direitos da juventude, e preocupado com a cidadania dos jovens e Mc Chamboco é um jovem Repper, que nas suas abordagens musicais consciencializa e reivindica os direitos da juventude. Portanto, usa do Rap para dar mais corpo ao seu activismo, tornando-se dessa forma um ARTIVISTA (artista e activista). Como pode perceber, existe entre os dois uma complementaridade, sendo dai difícil como disse dissociar os dois.

JT: A sua aparição pública de relevo começou no Facebook com uma rubrica denominada Rappface onde fazia críticas incisivas ao governo do dia, e chamava a juventude a questionar mais sobre os processos democráticos e aspectos de governação, o que lhe motivou para abraçar essa postura?

AC: Bom, a ideia do RAPFACE surgiu do nada, enquanto caminhava pelas ruas da Polana Caniço. Via muitos jovens sentados nas barracas, jovens aparentemente desocupados e era numa terça-feira se a memória não me atraiçoa, via jovens deambulando por aquelas ruas, aparentemente sem perspectiva. Aquilo colocou-me a refletir, sobre o porquê tanto jovem estar naquela situação de exclusão? Porquê eles não estavam na escola ou no trabalho? O que eles faziam para sobreviver? Questionei-me sobre o meu papel, o que eu poderia fazer para ajudar? Ali decidi usar da minha página do facebook para partilhar estes momentos de maneira criativa e propiciar o debate de modo a gerar soluções, mas acima de tudo para chamar atenção a quem de direito sobre essas problemáticas, essas vivências, essas preocupações, da juventude moçambicana. Na altura, a ideia era comunicar com os meus pouco menos de 500 amigos, mas devido a força que o RAP FACE tomou, o público cresceu grandemente, as pessoas pediam que denunciasse situação X ou Y,  as pessoas se reviam com o meu rap e davam força, dali descobri que o RAP FACE já não era meu, não era mais um dialogo com 500 amigos virtuais, o rap face tornava-se do povo, era da juventude. Por isso, há três anos para cá foram os sucessivos chambocos que fui apresentando.

JT: É comparado ao Azagaia, um dos nomes sonantes do Hip-Hop e activismo social em Moçambique, quer comentar?

AC: Azagaia é pai do rap de intervenção social em Moçambique. Ainda que tenham havido rapers que já o faziam antes dele, mas em termos de aceitação pública, não há duvidas que o nome que ecoa é de Azagaia. E acho normal que haja gente que me compare ou que me ligue a ele porque penso que perseguimos o mesmo propósito. Consciencializar, reivindicar, e conectar o cidadão do seu servidor transmitindo seus anseios, dores, emoções e etc, a partir da música. Mas também há muito pouco activista, cuja base de advocacia seja a música rap, por isso é normal que as pessoas liguem a minha imagem a do Azagaia porque ele é o pai do Rap de Intervenção  social (RIS) e eu faco igualmente RIS, e é por acaso também uma óptima pessoa com quem tenho boas relações.

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JT: Lançou recentemente nas plataformas digitais algumas faixas músicas e vídeos e que fazem parte de uma EP, são músicas que retratam essencialmente o assunto do dia, as dividas ocultas, de onde nasce a ideia, e qual é o feedback?

AC: A produção da EP nasce de um seminário intensivo que participei em Maputo organizado pela Open Societ Iniciative for Southern Africa (OSISA) cujo objectivo, era juntar na mesma sala jornalistas e artistas para reflectirem sobre mecanismos alternativos e criativos de apresentação de matérias jornalísticas investigativas sobre corrupção. Nesse seminário conheci o jornalista Tavares Cebola da Zitamar News, que investigou e escreveu um artigo sobre as dividas ocultas e sendo um caso bastante interessante de se registar dado a sua magnitude e forma como afectou os Moçambicanos, propus-me a narrar de maneira criativa o artigo, gravando uma EP e o meu projecto foi aprovado. Tenho de confessar que nem eu imaginava que o trabalho que me propunha fazer devido ao tempo curto que tinha, teria esta recepção que está a ter. O feedback, esta a ser incrível. A informação está a ser recebida, ainda óntem estive na Manhiça e as pessoas lá deram muito apoio, comentam que era preciso tal retrato sobre o caso das dívidas ocultas fosse feito e nada melhor que a música, que o rap, para fazer esse decálogo.

JT: Acredita num desfecho que vá ao encontro das expetativas da juventude sobre este assunto das dívidas ocultas?

AC: Bom, estas coisas são complicadas. Há muitos comentários de jovens cuja a ideia de fundo por eles defendida, é a responsabilização dos actores envolvidos e que o estado não pague esta divida. Eu concordo com estes jovens, mas ai está, vimos a dias noticias que davam conta que o estado começou a pagar, mesmo depois do Conselho Constitucional ter declarado as dividas ilegais. Por isso fica difícil de se saber o desfecho deste caso. Porque por um lado, temos gente a ser presa sob acusação de terem participado no processo de contratação das dívidas, por outro temos um Governo que desrespeita uma decisão do Conselho Constitucional e paga as dividas, tu ficas sem saber a intenção deste Governo. E pior numa situação em que há uma desconfiança do funcionamento da nossa justiça por parte do cidadão. Aliás a quando das prisões que assistimos, deve estar recordado que houve murmúrios sobre prisões fantoches ou apenas para o inglês ver, o cidadão que desconfia da funcionalidade da justiça colocou em causa a veracidade das prisões que estavam a ocorrer. Portanto é isto, é uma incerteza, estamos todos expectantes que os envolvidos sejam responsabilizados e paguem as dividas por via da recuperação de activos, aliás o barrulho que faço através da Ep e de outros rapfaces são uma advocacia no sentido de pressionar que isso seja efectivado.

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Mas no fim do dia, reitero, é tudo incerto. E digo mais, há quem alerte para que não nos esqueçamos que estávamos em período eleitoral, que não interessava ao governo do dia ir as eleições sem respostas ao povo a quem pediria voto, sobre este caso, o famoso estamos a trabalhar carecia de algumas evidencias. Como pode ver, há muita desconfiança com relação a nossa justiça, mas é facto que o povo quer que a justiça seja feita.

JT: Esteve envolvido semanas antes do dia de votação em Moçambique numa campanha através da música para evitar a apatia juvenil nas eleições de 15 de outubro, depois do processo acha que a sua mensagem foi ouvida?  E como avalia o processo no seu todo?

AC: A minha mensagem foi ouvida sim, aquela música foi feita no âmbito de um projecto denominado votantes de primeira viagem da Associação Lavatsongo cujo objectivo era incentivar aos jovens que votariam pela primeira vez a aderirem  em massa às urnas e segundo os observadores da associação o numero de votantes de primeira viagem que aderiu as urnas foi significativo. Destarte, é prematuro avançar com dados, visto que o relatório final ainda esta sendo produzido.

Sobre o processo como um todo, uma visão muito particular, penso que houve problemas graves que comprometem o processo, alias, há relatórios que mostram isso. Para qualquer iniciante em Ciências Politicas ou Sociais que analise a politica, sabe que a geografia do voto no pais, divide-se nalgumas regiões pela etnicidade, e não muito porque o partido X ou Y colou mais panfletos, a foto do seu candidato era a mais bonita, ou porque fulano ofereceu mais ou menos capulanas. Há regiões aqui no pais que historicamente são da oposição e não houve mudanças políticas suficientes para justificar uma tendência de voto abruptamente virada ao partido declarado vencedor. Que a oposição tem problemas, é um facto, mas também os tem a posição e se aliarmos os problemas no período de recenseamento, o caso Gaza, etc, eu não avaliaria o processo como dos melhores que já houve. Longe de mim duvidar da vitória do partido declarado vencedor, mas pelos problemas havidos no processo, não o avaliaria, como tendo sido dos melhores processos como se tenta fazer passar.