Um corpo crivado de balas

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Em memória a MahamudoAmurane

 

O som dos disparos inunda o Namutequeliua, o susto toma de conta de todos, Massica abraça os seus dois filhos. Mãe o que se passa? Sua boca treme, as palavras secam e o oceano dos seus pensamentos torna-se inavegável e um milagre esconde as poucas lágrimas que lhe restam derramar.

 

Apetece-lhe chorar como fazem os pássaros quando não encontram as coordenadas do seu ninho, mas não pode porque há crianças em casa. Os adultos sofrem assim mesmo, escondem lágrimas, acumulam coágulos e morrem por dentro, tudo para continuarem heróis diante dos olhos das crianças.

 

O silêncio que se segue é ameaçador. Os habituais fofoqueiros do Namutequeliua também não se expressam. Tenta espreitar pela janela, mas não se sente segura. Há uma vontade de saber o que se passa para saciar o espanto das crianças que não param de fazer perguntas filosóficas.

 

“Que fazer? Já sei, ligo rádio, essa gente da rádio não dorme, fala do que acontece em Namutequeliua com mais certeza que nós, os residentes” – pensa. Um concerto de Rei Costa está em exibição. Pelas ondas hertzianas desfilam sons do falecido astro do Kwachala, um concerto realizado há anos em Carrupeia, numa emissão ao vivo de Eusébio Carlos e Guilherme José, locutor e técnico, também falecidos.

 

“Não é possível, lá fora um silêncio depois de tiros e na rádio escuto vozes e nomes de pessoas que já não estão entre nós. Mas o que se passa?” Questiona-se enquanto respira para segurar a sua vontade de chorar. Mesmo com cheiro de morte indisfarçável, não pode chorar porque há crianças em casa e não podem saber que adultos também choram.

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Seu filho mais velho consegue ler o desespero nos olhos de sua mãe. Revolta-se por dentro ao saber que os adultos não pedem ajuda às crianças. Quer esfregar na cara de Massica todo seu orgulho, mas não pode porque pensa na possibilidade de ela agir assim para os proteger.

 

Para onde vais? – grita enquanto o filho abre a porta e se faz a rua. Massica o segue e lá fora todo Namutequeliua comenta. Escutam-se vozes em simultâneo e mensagens cruzadas. Fala-se de como o 4 de Outubro teria sido Dia de Paz, não fosse o que acabava de acontecer. E lá a frente, umas senhoras tiram capulanas para cobrir o corpo de um homem crivado de balas, membros da polícia fazem o cordão.

 

Pergunta o que se passa. Não tarda que lhe respondem. É o Presidente do Município, acabou de ser baleado por desconhecidos. Porque? Mas quem fez isso? Qual era o seu propósito? …. Uma infinidade de perguntas é feita, mas nenhuma resposta… Um corpo crivado de balas é o título do Diário de Namutequeliua que sai as ruas pela manhã seguinte. Amurane se foi mesmo, comentam os jogadores de muravarava debaixo da árvore frondosa do Cotocuaneenquanto as vendedeiras de papinha e bolinhos se fazem a Padaria Nampula.