Papo de barraca num ano eleitoral

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Participei, na semana finda, a da “independência nacional”, num bate-papo de barraca em que se debatiam questões político-partidárias e eleitorais, uma vez que estamos num ano propício e fecundo para tais lucubrações. As barracas têm sido, a meu ver, um dos verdadeiros espaços públicos, é nas barracas onde, de verdade e liberdade, os moçambicanos, os que as frequentam, fazem o uso pleno dos seus direitos de expressão, um pilar inaliável na democracia. Nas barracas fala-se sem medo e sem rodeios, talvez seja pelos efeitos do álcool ou a ideia de se saber de antemão que se está num espaço informal, seguramente as barracas são parte do espaço aonde ainda se ouve o pulsar democrático deste país deveras endividado.

 

Bom, no debate em que participai havia uma nata de oradores, não direi os nomes nem as formações dos meus ilustres cidadãos auto-convidados (nem todos anónimos) a esse exercício de cidadania porque não interessa. Como devem imaginar, os debates de barraca não seguem nenhuma regra nem protocolo, por isso sempre os que têm maior tenacidade na voz e certa astúcia ao intervir sempre monopolizam o debate, e os assuntos nunca seguem um guião, nem há uma estrutura de temas a serem debatidos, discute-se de tudo e mais um pouco, e é isso que se deve chamar liberdade de expressão e não sou eu quem vou revelar as identidades dos meus “comparsas”, talvez se o professor Jaime Macuane e o jornalista Ercílio de Salema estivesse a debater numa barraca, onde manter-se-iam em anonimato, talvez estes ilustres até hoje tivesse suas integridades físicas intactas e dignidades respeitadas. Nas barracas fala-se de tudo até de segredos do Estado, apesar de pulularem “gajos da sise”. E só frequentando estes lugares é que passei a dar razão a um professor meu, da escola superior de jornalismo, que afirmava que jornalista que não bebe não tem chances de se tornar um bom jornalista.

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No entanto, neste debate em particular, analisamos a freli, sobretudo o dossier “samito”, no que tange a Renamo, a recente telenovela (do regresso da morte de um dos seus membros) que teve um final feliz para perdiz, quanto a mim, já ao mdm, falamos sobre o seu iminente fracasso que se lhes avizinha e, por último, este recém-criado “Podemos” que de longe mostra que não “pode” patavina nenhuma.

O que tenho notado, nestes debates de barraca, é a existência de uma legitimação, da qual não concordo, que a freli mantém uma estrutura partidária coesa que poderá, como efeito, ditar glórias no Outubro que se próximo, e a Renamo uma desestruturação interna que a fragiliza, pese embora tenha quase tudo ao seu favor, mas que este ponto pode minar-lhe a vitória.

Eu enquanto cidadão dessa “pérola do índico”, “pátria de heróis”, como nos fazia lembrar o arquitecto do maior calote das dívidas ocultas, acho que a Renamo é o mais coeso partido que temos neste país, onde mostra uma clara e abnegada entrega dos seus membros, digo isso por ser um partido da oposição e manter “sempre” um alto nível de adesão popular, visto que surgiram vários partidos que a princípio podiam tudo, porém não passaram de tesão de mijo. Lembre-se do pdd e mesmo este mdm, onde os galos com mais canto e encanto abandonam a capoeira restando apenas algumas galinhas e ovos, este é um exemplo claro de desestruturação e falta incoerência partidária e não a Renamo.

Eu duvido que isto possa acontecer aos membros do partido no poder, o partido que há quarenta e quatro anos dirige os destinos (incertos) desse país, se um dia passar para oposição. “Não é fácil ser-se a oposição na África”, e julgo que esse raciocínio de que a freli é mais estruturada e coesa é obra da contra-inteligência, destes sisinhos que pululam nas barracas, que pretendem fazer passar uma ideia deturbada da realidade e para mim isso não passa mesmo de papo de barraca.

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