A Agonia dos pescadores de Atum

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O superintendente Namuiri, oficial-dia em serviço no comando distrital da PRM[1] aprecia pela janela do seu gabinete quão forte é a chuva que fustiga a baia de Memba e aumenta o seu estado de tensão sobre as operações de salvação da embarcação da Atusag, SA que ainda balança sobre as águas de Mitemane.

Com alguma agitação a mistura deita para boca de uma vez só uma chávena de café duplo a ver se alguma calma abrace o seu espírito. É preciso alguma frieza para salvar este barco – pensou. Não era para menos, pela primeira vez todas as forças policiais preocupavam-se com o naufrágio de uma, dentre as várias embarcações que fazem da caça ao atum, o seu dia-a-dia.

Volta a sentar e abre a sua gaveta de onde retira um maço de cigarros e respectivo isqueiro, entretanto, antes que os seus pulmões ingerissem o seu habitual antídoto, o seu telemóvel chama.  Comandando distrital da PRM de Memba, oficial-dia em serviço. Às ordens meu superintendente, apenas para informar que é melhor avançar com as operações em terra, porque o mar não nos facilita. Está bem inspector, por enquanto continuem com o trabalho e façam de tudo para salvar esse barco, porque ele não só leva pescadores de atum, mas pessoas que podem tomar decisões que impactem nossas vidas. E o superintende Namuri desliga o telefone sem esperar uma resposta positiva do inspector do outro lado da linha.

  • Sargento Nicauane

  • Às órdens meu superintendente.

  • Criem um auto-stop em todas estradas e recolham tudo quanto pode ajudar na logística para salvar o barco da Atusag, SA que como sabes está no meio das águas de Mitemane desde a madrugada.

  • As ordens meu superintendente – uma resposta que seguiu-se de um movimento de sirenes jamais visto pela vila de Memba.

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Será que é um novo casamento da mama Habiba Nikhuke? Não sei. Mas por onde ela anda? Trabalhava em Nacaroa e acabou de regressar. Mas ainda não tem enquadramento. Mama Habiba é muito forte, lembras do seu casamento? Sim lembro, teve uma festa jamais vista na vila. Tens mesmo razão, se não fosse o processo no tribunal. Processo? Sim. Ela tem um processo no tribunal, dizem que levou dinheiro da Capitania na altura que ela era a chefe dos pescadores e usou de forma indevida. Será que o dinheiro foi para o casamento? Não sei.

O espectro de especulações não conseguia parar as operações em terra. Os agentes da polícia estavam tão empenhados que chegaram a criarar um Auto-Stop na zona do Mitequereque, sendo que qualquer carro que por ali passasse era multado. Queria-se a todo custo angariar donativos que pudessem ajudar na logistica de salvamento do barco da Atusag, SA ora náufrago.

No meio de operações tanto no mar como em terra, uma calmia se faz notar na baía. As tempestades reduziram e o sol de forma envergonhada tentava mostrar-se. Por via disso, os agentes da policia estavam satisfeitos porque haviam já começado a resgatar o navio.

  • Vamos, façam força rapazes

  • Sim, estamos a conseguir

De repetenete um som de trovoada se faz ouvir para o susto de todos. O que se passa? A corda rebentou e o mau tempo está regressar. Uma mensagem que deixou os agentes da polícia lacustre e fluvial preoucupados. Afinal, dava para imaginar a angonia dos pescadores de atum cuja embarcação flutuava nas águas de Mitemane.

 

[1] PRM – Polícia da República de Moçambique