“Não sapo. Mashi pofeteou pemesmo! Saiu sangri até… checó toto greice onti, pwé madreco. Mas estava corto, tipo opesso entente?”

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Não existe maior violência que homem pode assumir perante pessoas do mesmo género, que a mulher o espanca. Isso torna-nos minúsculos. Dá impressão que não temos capacidade mínima para gerir as coisas lá em casa. Isso revela impotência. Então, após a “bofetada” que levei com Marta, tendo em conta os hematomas deixados pelas suas mãos enferrujadas, que causaram sinais de destruição na minha cara, ir para casa seria uma grande opção. E fui!

Voltei em anonimato. Andei guiando-me por paredes, parecia cego. A porrada foi de tal modo tão drástica que me inflamou as vistas. A cara estava rota, mais parecia calções de petizes dos anos 90, na parte das nádegas. Tudo rasgado, com a bunda à vista. O incrível é que foi apenas uma porrada.

Circula por aí um adágio popular que afirma “que as paredes têm ouvidos”. E eu acrescento: além de ouvidos têm olhos também – porque na manhã seguinte recebi uma visita de um amigo: Délio! Délio chegou muito cedo, enquanto eu dormia com a cara para o céu. No fundo ouço a voz do empregado doméstico lá de casa: “Batrão, batrão! Tua amigo chachecó”. Ouço de longe… mas no fundo eu ouço conversas do tipo fofoca, a parte sensível do meu ouvido ainda funciona. “Como ele está? Ouvi dizer que lhe assaltaram. Bateram com ancinho na cara…”, perguntou a visita. “He he he he he… azalto? Badera’um cum mãochi. Burata! Ainta mais com raparica, menina, mulheri, fêmea”, conta o empregado, mal sabendo que poderá ficar sem o emprego brevemente.

“Mulher? Eh!… que tipo de mulher faria isso?”, perguntou Délio. “Não sapo. Mashi pofetiou pemesmo! Saiu sangri até… checó toto greice onti, pwé madreco. Mas estava corto, tipo opesso entente?”, concluiu o mais candidato ao desemprego.

Depois das novidades ouço: “prepare-se, vamos ao hospital!” “Deve estar a brincar”, pensei eu. Ir ao hospital, passar essa rua toda a desfilar com a cara cheio de pontos negros. Enfim, não que eu estava desprovido de capacidades físicas e motoras para chegar ao hospital. Juro que com uma bengala eu faria isso sem estresse algum. Só não acho necessário que alguém me sirva de guia. No fundo no fundo, dá para ver uma luz ofuscada. Um pontinho na verdade.

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Ir ao hospital é uma grande saída. Acredito que sim, mas encarar aquelas tias do banco de socorros (…) enfim, “tem que ser homem”, encorajo-me. Fomos ao hospital e lá estava aquela tia gorda, com oculos de vista que parecem fundo de garrafa de vidro para refrescos, três cabelos com rasta e uma cara de afugentar lobos. “Bom dia, é o quê mais?”, perguntou a dona Soleia, a senhora que estava no BS. “Bom dia”, respondemos como se fosse um coral de Natal, eu e meu confrade. “Qual foi a causa do acidente?, o motorista assumiu ou fugiu?”… com caneta na mão e um prontuário, lentes sobre as narinas e cabeça aos 30 graus inclinada para nós enquanto os olhos estão sobre a armadura superior dos óculos, questiona novamente a exma doutora.

“Lhe bateram com uma mulher”, explodiu o meu amigo aos risos. “Porras”, soltei a palavra de tão nervoso, só que a voz não saía. “Pode chamar a dona Fátima do GAVVD/SDMAS?”, Soleia ao telefone. Vieram mais duas. “O quê que este caso tem a ver connosco? Este senhor foi batido com ancinho ou foi atropelado?”, questionou uma delas. “Lhe bateram com uma mulher”, explodiu o meu amigo aos risos, novamente. “Já meteram queixa?”, relança a do SDMAS. “Queixa?”, ouvi-se uma voz esforçada ao fundo, era a minha. Mais parece que estava resmungar que a questionar, na verdade. Infelizmente ninguém ouvira.

“Não vamos atender sem guia da esquadra de polícia. Fica logo ali na porta”, decisão final. Enquanto isso, eu e a minha cachola atropelada por ancinhos humanos daquela violenta, fico a pensar “aí na esquadra dele só tem homens. Aqueles tios polícias metem água…”, mas tem que ser homem. “Devo, no mínimo, voltar a respirar com fossa nasal esquerda pelo menos, porque respirar com boca cansa.

Já na esquadra de polícia. “Bom dia, epah a cidade está violenta mesmo. Enfim, estamos a trabalhar mas parece que não. Então, quantos eram? O que levaram? Voltavas de onde?”, perguntou Mário Marangaze, tal oficial de serviço.

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“Lhe bateram com uma mulher”, explodiu o gajo que me levou ao hospital. De repente, começa a conversa, parece que já se conhecem faz tempo: “Sabe, já tivemos um caso similar. Lembras daquele do dia 7 de Abril? Ah não era você era o Edilson pah. O mesmo que aconteceu com o teu amigo, aconteceu com um gajo que veio aqui com a cara esfarrapada também. Não comprou capulana!”, contou o oficial.

Fiz cara de nervoso. Comecei a resmungar, dobrei o punho, serrei os dentes, fiz cara de Gares Daniel, comecei a respirar forte, eram nervos. Eu queria dar porradas lá dentro para mostrar que sou sério. Quando de repente ouço lá ao fundo, “também foi mordido com cão? Isso parece doença da raiva. Ele está a rosnar e a cair saliva. Depois com essa cara toda espatifada mais parece cão mesmo”, disse alguém qual já não me lembro se estava dentro ou fora.

Caro leitor, entenda que uma história como esta, não pode ser relacionada a uma verdadeira pois todos os dados aqui patentes são fictícios. Mas, parei de contar porquê? Continuando, não me lembrei de mais nada senão uma cama estreita, fios transparentes e lençóis brancos. Mas existe um facto que me preocupa até então, desde o início desta história tenho contado que só foi uma porrada. Olhando-me ao espelho agora, até eu duvido…

Saudações, eu sou Liodêngua, até sempre…