“Bensei que teslicaste tilfone, arcuito!”

em CRÓNICA por

Um encontro, um beijo e um sorriso era tudo que eu precisava para ter certeza que aquela beldade seria minha. Ela abre a chapa de zinco, é o portão da casa onde mora. Vem em minha direção. O seu andar incita milhões de pensamentos. Pisa firmemente no chão. Seus lábios entram em erupção, sorri enquanto anda. Vendo toda aquela paisagem humana, abro os braços e fecho os olhos. Pista pronta para a aterrissagem do Boing humano. Quero um abraço. “Tem que ser um gajo da actualidade”, penso com a minha mente.

Ela, calmamente encosta o meu peito, engata-me com seus braços e serenamente em meu ouvido esquerdo, com tom sexy e de arrepiar diz: “Poa Noide Biteri.” — Sorrio como se não tivesse nada na cabeça, nem a parte crítica no meu sob consciente. “Boa”, retribuo. “Dás pé?”, perguntou-me olhando nos olhos. Respondi que sim, “estou bem”.

“Teslicaste dilmovel na minha cara, nuncostei”. As mulheres têm um espírito explosivo que numa hora lhes faz uma bomba atômica e noutra parece que nunca havia havido. Não demorou tanto para que as dobras na minha testa saíssem. Rugas! Ponto de exclamação! “Como assim?”, questiono-a e explico que a linha caiu. E ela num tom humoristicamente humorístico retruca: “Bensei que teslicaste, arcuito!”. Serrei os dentes.

Enfim, meu objetivo era conseguir um encontro, um beijo e um sorriso. No entanto, consegui um abraço, um sorriso e um elogio: “estás cato”.

Então decidi perguntá-la coisas da sua vida. Coisas tipo, com quem vivia e tal. “Vivo com meu pai e mãe, irmãos também”. Frase linda de nível alto. “Meu pai é puluça, trapalha na B.R.M”, acrescenta. “Ah, então teu pai trabalha na Polícia da República de Moçambique?”, pergunto. Ela responde positivamente e decido tirar sarro: “Então Polícia escreve-se com B ou P?”. Com um de quem sabe demais, “Eu tisse B-R-M, Puluça ta Repuplica de Moçambique. Escreve-se com B pequeno”, concluiu. “B pequeno?”… enfim, não “vou discutir coisas sobre língua portuguesa com esta miúda”. Não sou nada indicado para tal!

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Um passo à diante, estávamos nós no meio do campo da Centro Hípico, arredores da cidade de Nampula. Às escuras, nós dois, à sós, ambiente perfeito. Paramos para conversar, pouco mais. Coisas íntimas. Eu queria conseguir um beijo, lembra? Estimado leitor deve estar a imaginar o que é gastar crédito e andar longas distâncias para bater na trave.

Aproximo-a com vagar, faço entender que pretendo roubar um beijo. Na minha cabeça passam músicas e filmes Hollywoodianos. “É agora”, penso. Percebendo que eu estava perto demais, com sua mão direita encosta-me a bochecha. Caro leitor. Não foi tão sexy assim. Aquilo soou a um curto-circuito no PT. “Páh!”. Uma porrada bastante violenta. A única coisa que saiu da minha boca foram jatos de saliva e um a frase “heiiiiii…”

Bateu-me tanto que ficou cravada na minha face os seus dedos. O olho direito ficou vermelho. A situação ficou tensa entre nós. Quero que me explique por que razão fé-lo. Não sabe explicar. Parece arrependida. “Porquê?”, questiono. “Custulpa. Num era pra tuer. Vi na novela ta stéve. Não pensei que tuesse. É minha primeira vez”, justifica. Aliás explica — estou nervoso então acabei por esquecer a diferença entre essas duas palavras.

“Não se bate assim. Muito menos com essas mãos enferrujadas”, explodi. “Acora eu pato mesmo, apuçado” – retribuiu.

“Pantito. Assim pensas que és quem? Me tevolvi-lá em caça. Não é para me berter respeto. Eu denho nome, não me chamar te mão enferruchata. Meu nome é Marda”.

Não demorou tanto para que o meu sub consciente acusasse: “Puto, se de forma romântica ela bate até ferir a cara, imagina quando está nervosa…” enfim, não lembro de mais nada porque fui parar ao hospital. Esta parte não posso contar agora, devo esperar as dores passarem.