Juma: O comandante da lixeira

Juma: O comandante da lixeira

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É um cenário dramático. Crianças com idades que variam entre 03 a 11 anos, estão expostas diariamente à um perigo de saúde de grandes proporções. A imagem que acompanha o presente artigo foi captada terça-feira, 26 de Março de 2019 as 12 e 45 minutos, com a precisão de um dispositivo Canon EOS 700D.

Estamos a cerca de 10 quilómetros da zona cimento (centro da cidade) de Quelimane, é a designada lixeira municipal onde diariamente são despejadas 40 toneladas de resíduos sólidos não classificados. Situada nas bermas da Estrada Nacional Nr 07, a descrever a única “ponte” de acesso terrestre entre Quelimane e o resto de Moçambique, cerceada por zonas residenciais à fazerem um cordão limítrofe, o lixo este passou a ser um vizinho de estimação para as famílias do bairro padeiro na actual geografia.

A cada descarregamento de lixo oriundo do centro da cidade, fabricas de processamentos de produtos diversos, lixo hospitalar entre outros, há um grupo de petizes inocentes que formam um grande conglomerado  à espera pacientemente o despejo  para de forma desprotegida, isto é sem calçado ou mascaras penetrar nas entranhas  do lixo nauseabundo a procura de latas de sardinha, brinquedos quebrados e inutilizados por outras crianças que a sorte reservou lhes um destino diferente. Procura se vestuário e outros itens que as vistas tratam de classificar a sua importância.

Juma de nome fictício comanda um pequeno exército, descalço e com os olhos sempre a mirar o chão, quase se pode adivinhar o que procura: Esperança.

Reservado e de poucas palavras, é talvez essa forma discreta de estar que lhe favorece no comando da sua equipe composta por mais de 17 garotos, ordena de forma subtil e ri-se das piadas dos outros de forma tímida, talvez a nossa presença terá favorecido para está última descrição.

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Ao Jornal Txopela, Juma não conseguiu ir ao detalhe, apenas diz que todos moram nas imediações da lixeira municipal de Quelimane, questionado se os encarregados sabiam da frequência daquele grupo à lixeira, acenou com a cabeça em sinal de aprovação, e tagarela a seguir algumas palavras em língua Echuabo, “não há  diferença entre estar no interior do bairro e estar aqui, é tudo igual ” como que a justificação fosse suficiente para que os país e encarregados de educação chancelassem tal conduta. E o bom senso de qualquer ser humano obriga a concordar com o discurso do jovem comandante da lixeira municipal de Quelimane. De facto, o padeiro não é área residencial, foi invadida por populares mesmo com o perigo que todos os anos correm por conta das inundações criadas pelas chuvas cíclicas.

Juma, conhece quase todos os nomes dos funcionários da Empresa Municipal de Saneamento de Quelimane, e há vezes que os trata por tio, alias faz mais, sugere aos condutores daqueles veículos pesados onde despejar o lixo, “ele domina este terreno lamacento, e por vezes seguimos as ideias dele para evitarmos enterrar os carros aqui” confidencia-nos um motorista da frota de recolha e despejo de resíduos sólidos em Quelimane. Empregue a mais de 15 anos naquela instituição, diz que já viu de tudo, mas a obstinação ‘destas crianças é algo que me comove e ao mesmo tempo preocupa”, mas adianta que não pode fazer nada, é um simples servidor. A solução esta nas mãos do Governo, enquanto isso, admite que continuará a partilhar o espaço com Juma e outros que estão ou que vieram até que a reforma lhe bata a porta, ou a morte por conta do lixo, comtempla a imensidão lá para as bandas de Namacata e ri-se.

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Com uma lixeira em terreno aberto e sem vedação, muito menos a presença da força municipal para impedir a entrada destas crianças, torna se claro que o problema vai prevalecer por muitos e longos anos. Enquanto isso Juma jura de pés juntos que continuará a “brincar” com os seus amigos neste espaço, mas promete não abandonar a Escola, agora com a frequência de 6 ano do ensino primário, ainda não sabe o que tenciona ser no futuro. Com esta realidade a mutilar-lhe os sonhos diariamente, o mais provável é que não tenha futuro, uma doença respiratória ou outra qualquer dependendo da gota de azar que lhe incidir não tardará a abraçar ao Juma.

De resto, por parte das autoridades municipais de Quelimane e do Governo Provincial da Zambézia, e na aludida sociedade civil verifica-se a inercia habitual. Aquela que mata aos poucos os sonhos e esperanças de comandantes como Juma.