Exposição seletiva a inverdade, polarização política e falta de atenção: as várias manifestações da decadência da verdade

em OPINIÃO por

A expectativa gerada pelo advento e democratização das redes sociais parece estar a ficar gorada, a não ser que algo muito sério seja feito para inverter a tendência. As pessoas estão a ler menos. A expectativa era que lessem mais. As pessoas estão a preferir vídeos e fotos, como resultado dessa fadiga cerebral. Era expectável que buscassem mais conhecimento para fechar o fosso digital e do conhecimento. Era expectável que suprissem o fosso de “informação para a vida” (lifesaving information), pelo contrário, viagra e pornografia são o conteúdo mais procurados na Internet.

Temos vindo a chamar atenção sobre a crescente tendência da “decadência da verdade”, marcada pela subversão dos padrões de argumentação, desacordo sobre factos, confusão entre factos e opinião, sobrevalorização da opinião ou experiência pessoal sobre os factos ou verdade, etc.

Acresce-se à esse fenómeno, o paradoxal declínio dos hábitos de leitura bem como a declínio da atenção, da compreensão e da interpretação.

Tudo junto, o declínio da verdade afigura-se o maior desafio dos nossos tempos, principalmente no campo académico, intelectual e porque não, no campo político. Agora as pessoas são obrigadas a serem curtas e diretas, concisas e o mais claro quanto puderem, de forma a satisfazer os indolentes.

A pergunta que se faz é, como e possível ser claro e conciso à partida, se não conhecer a totalidade do objeto sobre o qual pretende debruçar? Só quem conhece, quem sabe, é capaz de ser conciso. Mas essa súmula só é captável para quem também estiver familiarizado com o assunto. Estranhamente, por estes dias, quaisquer cidadãos, até estudantes, estão em busca de conteúdo “conciso, curto e direto ao ponto”.

Esse fenómeno pode até parecer lógico, mas denuncia um mal-estar do nosso cérebro e dos padrões de raciocínio. O cansaço, fruto da inundação de informações diversas que por dia recebemos em nossos dispositivos eletrónicos, provoca obviamente a distração, a falta de atenção, pois ele o cérebro, tem tido muito pouco tempo para processar a informação que recebe. Já escrevi sobre isso no passado, num texto que intitulei “como as de dês sociais o torna em nabo?”

Um dos exemplos de como muitos andam distraídos e se calhar não chegam a ler o meu conteúdo é quando confundem liberdade de opinião com falta de respeito; quando confundem opinião com conversa ou quando esperam que os mantenha na minha lista de amigos quando proferem injúrias e atentam o meu bom nome. Na verdade, esses desatentos são vítimas da decadência da verdade, fruto da subversão da estrutura e padrões de racionalização e de debate que sofrem, em parte dada a sua fraca instrução académica, profissional ou até fracos padrões morais e éticos.

Leia:  Como homenagear Zena Bacar!

Outro fator pode estar relacionado com o advento dos dispositivos móveis como celulares e tablets e seu acesso fácil, que introduziu ao mundo de debate de ideias, indivíduos ainda não preparados para tal.

Assim, passaram a partilhar mesmo palco, a mesma ágora, analfabetos, semianalfabetos, analfabetos funcionais, intelectuais, académicos, profissionais de diversas áreas, etc., numa mescla de culturas, contraculturas, subculturas, tudo tornando o debate difícil de gerir. Uns chamaram isso de inclusão, todavia um debate só é possível quando os que nela participam entendem o assunto e se regem por regras. Um Sociólogo moçambicano, foi várias vezes acusado de ser elitista por defender alguma competência no debate. Mas é verdade que é impossível manter um debate sério se os que nele participam não partilham as mesmas regras.

A expectativa gerada pelo advento é democratização das redes sociais parece estar a ficar gorada, a não ser que algo muito sério seja feito para inverter a tendência. As pessoas estão a ler menos. A expectativa era que lessem mais. As pessoas estão a preferir vídeos e fotos, como resultado dessa fadiga cerebral. Era expectável que buscassem mais conhecimento para fechar o fosso digital e do conhecimento. Era expectável que suprissem o fosso de “informação para a vida” (lifesaving information), pelo contrário, viagra e pornografia são o conteúdo mais procurados na Internet.

Estou a ser longo de propósito, pois este texto tem fins pedagógicos e também quero que os indolentes desistam pelo meio.

Nas últimas 96 horas bloqueei 70 perfis de Faceboo – nem os chamo de indivíduos pois não estou seguro se são mesmo ou são robôs. A maioria deles tinham no seu perfil informações que davam conta de que teriam estudado ou estudam na UP. Verdade ou não, o que fica claro é que são pessoas que frequentam ou frequentaram nível superior ou que pelo menos gostariam de lá estar. O que me intriga é notar grandes “falhas” na sua capacidade de leitura, compreensão e interpretação. Já o fiz lá atrás e volto a repisar, para introduzir uma outra dimensão analítica.

A violência verbal, a falta de higiene verbal, o bullying online, são a terceira dimensão do mesmo fenómeno, aqui descrito por “decadência da verdade”. O seu reverso também é válido. A paródia, o humor torpe, também podem ser tidos como caraterísticas dessa tendência subversiva.

De uma ou de outra forma, essa tendência violenta pode também ser vista como reveladora de uma mal-estar social, que urge por uma catarse. Já não é pela justiça que se clama, é pela vingança. Não pelas leis que se clama, é pela ação punitiva; não é pelo bem-estar, é pela pauperização (empobrecimento) daqueles que se acredita terem por muito tempo debochado o Estado e enriquecido ilicitamente. A catarse não tem referência. É pela eliminação do outro, pela exclusão. Aos poucos, os que consideram “injustiçados” são estes mesmos que se transformam em vampiros. E ninguém se apercebe disso. Mas é assim como percebo, quando por tudo ou por nada se dispensa o debate de ideias em prol de uma revolução, de uma catarse, de uma “limpeza”. Estas perceções não são de todo únicas de Moçambique. No Brasil, Estados Unidos e na República Checa por exemplo, o sentimento de “basta do politicamente correto” levou ao trono líderes populistas como Trump, Bolsonaro e Milos Zeman. Esse sentimento tem no final, um nome, uma ideologia e um modus operandi: POPULISMO.

Leia:  A astúcia lusófona e o teste do mundial RÚSSIA 2018

Em Moçambique, pode se concluir que, na globalidade, é o populismo que está a campear e a comandar o debate público, caracterizado pela incessante busca pelos culpados e bodes expiatórios, apelo incessante pela purga desses mesmos bodes expiatórios e por vender a ideia de que há futuro só com a radical subversão do modus operandi. A especulação e as teorias de conspiração constituem para o populismo, o seu método operativo.

No dia dos tolos que hoje celebramos, há que rever todo esse quadro, onde cada um busque o seu compromisso com a verdade, com o conhecimento e com a sustentabilidade da razão. Se não fizermos isso, estaremos a cavar fundo o nosso futuro, que pode ser ainda pior que os estragos do IDAI.