LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

Alma Rejeitada: Um relato sobre ciclone IDAI

em DESTAQUES/REPORTAGEM por

A 14 de Março de 2019, a partir das 9h00 da noite, enquanto o mundo desmoronava lá fora, preparava-me para aceitar uma nova realidade qual eu poderia fazer parte. Havia, na verdade, duas consequências que podiam advir da passagem do furacão IDAI, na cidade da Beira, província de Sofala, capital do centro de Moçambique.

O ciclone aconteceu numa quinta-feira. Lembro-me que no final da tarde do mesmo dia, já havia sido dado o toque de recolher, pelos aplicativos instalados nos nossos smartphones. Era uma preparação para um acontecimento que ceifaria vidas e deixaria milhares de afectados. Aquela realidade lembrava-nos cenários cinematográficos: enquanto uns iam em busca de água potável e/ou mineral, outros buscavam comida nas lojinhas daqui do Macuti, bairro frente à praia que leva o mesmo nome.

De repente o céu assumiu uma nova feição. Ficou cheio, era o sinal mais claro que alguma coisa feia estava mesmo para acontecer. Um vento para aqui, outro para acolá, eram os primeiros momentos do evento que ia dar a uma catástrofe natural que deixaria a cidade da Beira na berlinda, no que tange à sua existência. Quando eram precisamente 09h00 de Moçambique, o meu vizinho sofria o primeiro golpe. O vendaval retirou a cobertura na sua casa. A habitação, convencional, de alvenarias em tijolos de cimento com revestimentos do mesmo produto de construção, aos poucos começou a revelar-se incapaz de proteger ao seu dono. Depois seguiu-se à casa do vizinho dele, depois o outro e outro (…)

As coisas caiam. As arvores mais pareciam estar em exercícios de aeróbica que outra coisa. As mais flexíveis tocavam o chão e regressavam à sua posição normal, já as mais robustas, jamais voltarão. Ficaram por terra.

Uma hora depois, a natureza começou a rever a sua força perante os homens. Neste instante, as linhas telefónicas, de dados e eléctricas pararam de funcionar, dando lugar a uma escuridão total e sentimento de aflição. A partir daquele momento a coisa tornou-se mais séria. O ciclone começou com a sua missão: devastar Beira. As tampas das janelas e portas começaram a bater contra os seus aros. Não havia tranqueta ou fechadura que aguentasse. Os vidros revelavam a sua fraqueza perante à pressão dos ventos que, em forma circular, carregavam tudo o que encontrassem no seu caminho.

Passados mais 60 minutos, deu-se à uma paragem repentina. Acreditava-se que o mal havia acabado. Ficamos à espera do restabelecimento das linhas telefónicas incluindo a corrente eléctrica. Lá fora estava, quase tudo no chão mas dava para recuperar no dia seguinte. Enfim, começou a chover. Era miúda a chuva, não trazia consigo grandes novidades. A paz não durou tanto quanto pensávamos, porque de repente, ouvimos um zumbido forte. 01h00 de madrugada. Só Deus sabe o que aconteceu e como se sucedeu. Parecia uma enorme explosão. Se na primeira vez carregou o que encontrou, na segunda destruiu tudo o que carregou na vez anterior.

Desta vez IDAI trouxe consigo além dos ventos, a água lá da praia. 220km/h. Os tectos de arquitectura de ponta, os precários, os que já não existiam, as paredes, os postes de energia eléctrica, as torres de comunicação, os muros de vedação, as portas e janelas, os carros, as árvores, as pessoas (…) todos foram tratados da mesma maneira. Sem dó nem piedade. E os moradores de rua? Os cães de guarda? E os guardas?

Leia:  QUELIMANE: Água não chega às torneiras

– A água já se fazia dentro de casa. A cama, a comida, os cadernos, a tv, o rádio, o fugão, a roupa – tudo embebido de água trazida pelo vento. Lá fora, gritos de socorro. Cá dentro, temia que a estrutura de betão cedesse. A casa andava aos tremores. Parecia que o ciclone quisera carrega-la, mas não conseguia. Enquanto isso, as unidades exteriores de ar condicionado caiam em série. Nunca havia passado por um evento similar.

De repente, o medo, aflição e desespero tomaram conta das minhas capacidades psicológicas e físicas. A casa estava alagada, o ambiente exterior era horripilante. As coisas caiam por toda parte. As águas marinhas invadiam a estrada principal e foram parar aos nossos quintais.

– Enquanto isso, rezava a Deus para que me tirasse daquele sufoco. Porém, mais parecia que eu estava mais protegido e que ele estava ocupado salvando outras vidas e recebendo almas lá nos céus.

Quando menos esperava, a porta e as janelas não conseguiram segurar o vento. IDAI acabava por entrar nos meus aposentos. Faltou até esperança dentro da própria esperança. Parecia que aquilo só estava a acontecer no meu quintal, na minha casa.

Nada mais restava senão entregar a vida ao todo-o-poderoso. Entreguei a minha alma, já não aguentava mais. A Tv quebra-se, a mesa era literalmente arremessada contra a parede. E as lágrimas no rosto justificavam os meus sentimentos. A morte demorava a chegar. Entendi que me haviam rejeitado o pedido. Enfim, devia correr atrás dos prejuízos: repor as tampas das janelas, carregar o computador nas costas, colocar o colchão por cima da mesa e etc.

Sem martelo e arranca pregos, começou uma nova história. Usar as próprias mãos para arrancar pregos da parede. Sim, eu fi-lo. Era a prova que um homem na aflição é capaz de vencer as suas limitações.

Enfim. Vento pós vento. Água na água. Algas marinhas, aves mortas… com marmita ia reduzindo o alagamento enquanto o ciclone contradizia-me devolvendo-a pela janela.

Desesperadamente, esperávamos pelo novo dia. Amanheceu. A porta mal se abria. As janelas quebradas. Unidades exteriores de AC no chão. Estilhaços de vidro por toda parte. Cadeira de madeira, electrodomésticos, muita coisa estranha espalhada pelo quintal. Lá do outro lado da rua, as casas em ruínas. As árvores plantadas nas bermas da estrada, quase todas no chão. Cabos eléctricos por toda a parte. O bairro todo alagado. O mercado vazio. As lojas pilhadas. As ATMs escangalhadas. E os celulares, só serviam de lanterna.

Sem comida e água para beber. Sem horas, nem informação sobre a família e amigos. Isolado de tudo. Sem nada. As horas passavam mas ninguém dava importância. Não acontecia nada de novo. Aos poucos as notícias iam chegando, fala-se apenas de destruição e mortes.

Leia:  A ONDA DE CABRA-CEGA CONTINUA: RENAMO ainda sem cabeças de lista na Zambézia

A procura por comida começou a tornar-se uma coisa muito séria. O desespero começou a aumentar. Aos poucos esperávamos que aparecesse ajuda de qualquer um dos lados. E só ficamos nessa tal esperança até que conseguimos comprar 1kg de arroz molhado e peixe tocado.

Não era um acto de coragem alimentar-se de comida com prazo vencido. Era um acto de sobrevivência. Se a comida comprada anteriormente fora toda estragada pelo alagamento.

Sem sol, roupa molhada, cama e seus elementos também nas mesmas condições. Dormir sentado na cadeira plástica era um luxo pois os outros passavam a noite em volta da fogueira, sem dormir porque tudo estava húmido.

Foram, mais ou menos cinco senão quatro dias sem sol. Apenas aos chuviscos. Por toda a parte da cidade só se via rastos de destruição. Muita areia na estrada. Muita gente com chapas de cobertura nas carrinhas de mão e alguns sacos de farinha ou arroz pilhados ou ofertados por agentes comerciais cujos armazéns tombaram.

Crianças por toda parte. Elas brincam sorridentes, mas os mais velhos, seus pais, irmãos, tios, avos e primos, todos tristes, não sabem como irão se virar por mais uma noite. No entanto, eu também faço parte, mas não sou da mesma família, apenas sou moçambicano igual (…)

Chamada de atenção            

Quero crer que não teremos eventos de tal natureza, novamente. Mas é necessário que aprendamos a nos precaver.

1 – Não custava desenvolver campanhas de indução às comunidades sobre como se proteger e aonde estar quando algo parecido está prestes a acontecer. Não basta apenas dizer “fique em casa, num lugar seguro”.

2 – Deve-se informar que tipo de lugar seguro se trata.

3 – Que se promovesse campanhas de retirada de populações que vivem em zonas de risco.

4 – Os Mídias tiveram papel pouco abrangente no que tange a propagação de informação sobre aquele evento. Até televisões internacionais criaram canais específicos para falar do ciclone e nós continuamos com as mesmas programações, de entretenimento e perda de tempo.

5 – Capacitar os membros do INCG a gerir calamidades e não só gerir doações.

Translate »
Ir para topo