África do Sul, a irmandade que o tempo levou

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“Não é estranho para muitos de nós que a maioria dos Sul-africanos, apesar da ajuda que obtiveram dos seus irmãos africanos para combater o apartheid, não se consideram Africanos, mas é assustador quando tal pensamento é partilhado pelo Presidente da República da África do Sul.” – Stanley Onjezani Kenani, Escritor Malawiano em referência as declarações de Jacob Zuma em 2013.

Há quem diga que o desaceleramento da economia sul-africana, o aumento dos altos índices de desemprego e a acumulação de capital por parte de uma minoria negra sul-africana propiciou a que alguns sul-africanos no limiar da pobreza encontrassem na xenofobia o seu bode expiatório para justificar os actos de ódio degradantes que somos obrigados a assistir naquele país vizinho.

Desde a morte de Nelson Mandela, o Nobel da paz e Pai do povo Sul – africano, a África do Sul nunca mais foi a mesma.

O Rei Godwill Zwelethini do Kwazulu Natal que num discurso infame apelou a retirada compulsiva de estrangeiros residentes na África do Sul culpando – os do insucesso dos nativos num claro gesto de ódio contra os estrangeiros num passado recente, o discurso elitista de Jacob Zuma antigo Presidente que num discurso em 2013 afirmou que  “não podemos pensar como os Africanos em África em geral. Estamos em Joanesburgo (…) não estamos numa estrada nacional no Malawi” e o ódio aos brancos por parte de Julius Malema, que não se importava com a morte destes acabam sufragando a ideia de que com a morte de Nelson Mandela, o país perdeu os laços de irmandade que mantinha com outros povos mormente da região austral de África.

É verdade que a África do Sul e os seus líderes tem cota parte mas é preciso não tapar o sol com a peneira e assumir que as idas de nacionais da Nigéria, Moçambique, Angola, Zimbabwe e Congoleses a África do Sul a procura de melhores condições de vida, atrás do el dorado acaba também sendo um factor a acrescer as causas que podem estar por detrás da fúria de sul-africanos que incitados pelos seus líderes acabam por expulsar os cidadãos estrangeiros das suas terras obrigando – os a regressar as suas origens.

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Discursos dos líderes políticos, de Reis, chefes tribais e até chefes locais tem um impacto significativo para os seus povos, por isso a essa gente que detêm o poder se exige muito cuidado e cautela sobre os seus discursos principalmente quando se dirigem aos seus povos.

Se o povo sul africano justifica a falta de emprego com a entrada massiva de cidadãos estrangeiros de outros países, os discursos dos seus líderes nesse sentido, acabam sendo o isqueiro que faltava para acender a pólvora.

Enquanto houver o Direito Internacional e as Migrações serem permitidas, nenhum território deve proibir a entrada de cidadãos de outras nações desde que os mesmos estejam numa situação de legalidade, por isso, se a África do Sul continuar admitir a entrada de moçambicanos, nigerianos, zimbabweanos, angolanos e congoleses e a ser verdade que uma vez na África do Sul, estes possuem as melhores oportunidades de empregos e as mulheres sul-africanas mais esbeltas, o problema da Xenofobia não tem um fim a vista. Pode ser apaziguado e nalgumas vezes estar numa situação de latência, mas também numa situação de pólvora prestes a pegar fogo.

Malema tem recorrentemente insultado os sul-africanos de cor branca, nada lhe acontece, desde os tempos de Zuma, Cyril jamais ousou em censurá – lo, muito pelo contrário, se dependesse de si, Malema voltaria de onde nunca devia ter saído, do ANC. O Rei Godwill Zwelithini ainda que tenha vindo posteriormente a público dar o dito pelo não dito alegando que foi mal interpretado pela opinião pública, quando apelou que se expulsassem compulsivamente os estrangeiros que viviam na África do Sul pois eram eles os responsáveis pela ocupação dos melhores postos de emprego e de estar a casar com mulheres sul-africanas em detrimento destas unirem – se aos seus compatriotas, estes e outros factores estão na génese da xenofobia que se assiste na África do Sul, um país que outrora foi irmão para Moçambique, Angola, Nigéria, Zimbabwe e Congo.