Mais do que orações…

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A fúria e os danos da mãe natureza são imprevisíveis. Um dos testes de que há memoria no Moçambique moderno, que pôs a “nú” as nossas fragilidades e dificuldades para lidar perante a fúria da mãe natureza deu – se nos primórdios da década 2000. A zona sul de Moçambique foi a que mais danos sofreu nas cheias ocorridas em 2000.

Se em parte as cheias ocorridas naquele ano afectando maioritariamente a zona sul, trouxeram imensos danos e sofrimento aos nossos compatriotas, por outro, permitiu – nos perceber o tamanho da solidariedade perante o sofrimento do nosso próximo. Mobilizaram – se meios de toda espécie, houve ajuda humanitária internacional vinda quase de todos os quadrantes do mundo que acabou servindo de aspirina para o sofrimento que ate então atingira uma significativa parte deste solo pátrio.

Desde o ano 2000 a esta parte, Moçambique foi sendo fustigado por outras intempéries de pouca magnitude até que o Ciclone IDAI veio arrancar as crostas das feridas de sofrimento do povo moçambicano que pareciam ter sarado quase duas décadas depois. Embora desta vez o epicentro do ciclone tenha sido na zona centro do país concretamente nas Províncias de Sofala, Manica, Zambezia e Tete, neste tipo de situações, o sofrimento tem um efeito em cascata, acabando por atingir toda nação.

Até então os danos causados pelo ciclone IDAI são incontáveis, são vias de acesso danificadas condicionando o tráfego rodoviário e em consequência disso levando a carência e especulação de preços de primeira necessidade, comunicações interrompidas, óbitos e cidadãos desaparecidos em consequência directa da intempérie. Ainda que haja todo o tipo de apoio, a vida das populações atingidas jamais será a mesma, as feridas abertas pelo ciclone levarão uma eternidade a sarar.

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Com o advento das redes sociais duas frases passaram a ser recorrentemente usadas em casos de ataques terroristas, intempéries ou outras situações para confortar as famílias que perderam os seus bens e ente queridos, “PRAY FOR”… e por vezes “JE SUIS” a seguir o nome do país, da região ou família atingida. Em tradução livre PRAY FOR significa oremos por, e JE SUIS, eu sou…

O que se tem visto nas redes sociais depois da passagem do Ciclone IDAI é um PRAY FOR direccionado simplesmente à cidade da Beira. Parece que a nossa memória colectiva tende a esquecer que em Buzi o edifício do governo local serviu de abrigo para o refugio de compatriotas que perderam tudo ou quase tudo e tentavam a todo o custo salvaguardar o que de mais bem precioso possuem: a vida. Esquecemos que Doa, em Tete está com a comunicação interrompida com o resto da Província de Tete e do País, nos esquecemos da Zambézia onde os danos em consequência do ciclone também estão ainda por contabilizar.

A intenção é boa, o apoio moral ou religioso é fundamental em situação de aflição e de perda de um ente querido ou de bens. Mas mais do que orações, para Beira, urge o apoio material, não basta que rezemos pela BEIRA e por outros locais onde o ciclone deixou sinais que ninguém jamais irá se esquecer durante muito tempo.

Os danos em consequência são irreparáveis, mas o nosso apoio material é fundamental. Precisamos mobilizar todos meios possíveis para ajudar os nossos irmãos fustigados pelo ciclone. Uma vez recolhidos os bens, os mesmos devem ser canalizados às instituições de direito para seguidamente distribuírem aos mais necessitados. Precisamos ser igualmente cautelosos e vigilantes, precisamos fiscalizar a distribuição dos bens por nós doados para que não caíam em mãos alheias, para que não sejam canalizadas em pessoas disfarçadas de funcionários de entidades competentes para recepção dos donativos e que na verdade não passam de lobos em peles de cordeiro.

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Só assim iremos amainar o sofrimento do nosso povo na região centro do país, pois Sofala, Manica, Tete e Zambézia, precisam de mais do que nossas orações.

PS: Não nos esqueçamos também dos ataques de insurgentes em Cabo Delgado, pois Cabo Delgado também é Moçambique.