Camal Meragy: O General do Carnaval de Quelimane

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Artigo publicado no Jornal SAVANA aos 20-02-2015, Suplemento Carnaval da Solidariedade

“Ele é o carnaval!”. Assim o define, de forma enfática e sumária Manuel de Araújo, quando pedimos para que falasse de Camal Meragy, o homem que dirige toda a máquina do carnaval. Mestre-de-cerimónias do carnaval, chefe da comissão organizadora, líder de todo o aparato operacional do carnaval, se se quiser medir o nível de organização (impecável, diga-se!) do carnaval, repare-se na movimentação de Camal durante o evento.

É vê-lo a dar ordens aos responsáveis pela segurança e pela movimentação coreográfica dos grupos, é vêlo a chamar atenção para este e aquele pormenor no desfile, é vê-lo e ouvi-lo a apresentar o programa do evento ou a pausar e pautar o ritmo, com intervalos para chamar a ambulância para socorro de alguém necessitado ou para simplesmente mobilizar o povo a ordem e advertir os grupos para o rigor e a disciplina.

Parece um general em pleno campo de batalha a sublimar a arte de guerra, delineando a estratégia e comandando seu exército. E que exército Camal Meragy comanda, uma enormidade de gente, talvez trinta, porventura mais de cinquenta, que deve devem orientar os grupos foliões e manter o cordão de segurança do sambódromo. A comprovar mesmo que Camal é o carnaval, o dia do encerramento do Carnaval da Solidariedade coincidiu com o seu aniversário. Mal o relógio marcou zero horas do dia 15 de Fevereiro, ainda era noite quente e húmida no sambódromo de Quelimane, a Praça da Juventude, a equipa de organização do carnaval cantou parabéns, e Camal cortou o bolo comemorativo dos seus 56 anos de vida – quase dois terços deles vividos em carnavais.

É natural de Maputo mas “com fortes ligações a Zambézia”, diz. Desde 1969, conta, passou a ser um ritual obrigatório da sua vida ir ou vir a Quelimane ver o carnaval. Considera que o carnaval do tempo colonial caracterizava-se pela multirracialidade. “Eram caravanas de salão, nos pavilhões e com bandas musicais, era multicolor, não se sentia o racismo, mas era um carnaval urbano.” Camal estabelece o verdadeiro marco de mudança da festa popular quando o primeiro presidente do município eleito, Pio Matos, decide transportar o carnaval dos salões para a rua: “aí a configuração muda. Envolve o pessoal todo da periferia, o carnaval passou a ser peri-urbano.

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O Conselho Municipal criou a política de apoiar os grupos, ficou um carnaval de rua e peri-urbano, muito mais popular.” Camal trabalha para o carnaval desde 2007, a pedido de Pio Matos, que reconheceu nele a veia artista (“também sou músico”) e a experiencia de organização de eventos, com o apoio das pessoas da sociedade civil.

MEMÓRIAS E EPISÓDIOS

Para quem já vive isto de carnavais de Quelimane desde os seus 10 anos, alguns episódios e marcos povoam a sua memória. A memória mais doce é de um seu tio, de nome Algy, que segundo Camal Meragy, chegou a ser o melhor bailarino do carnaval, no tempo colonial. “Ele está vivo, com mais de 70 anos. É de Inhambane mas veio a Quelimane aos 6/7 anos, é uma figura que não se dissocia do carnaval.” Outra história, passou-se provavelmente no ano de 1972: “houve uma rixa entre dois indivíduos, um deles partira o vidro do carro do outro. Aparece um agente da polícia, a PSP, que diz que não os vai levar à esquadra, pois coisas daquelas eram típicas de carnavais, e os convida a reconciliarem. E eles abraçaram-se e reconciliaram-se”, conta.

Isso é mesmo típico de carnaval, tanto mais que, garante, nos tempos actuais, o carnaval é pretexto e oportunidade para nascerem namoros, refazerem se relações quebradas e até desfazerem-se relacionamentos. É a testosterona, é a adrenalina! Camal Meragy constituiu, no tempo colonial ainda, a banda Quarteto 72, de que é único membro ainda residente no país. É vice-presidente da Associação dos Músicos Moçambicanos, sendo o único membro do elenco não residente em Maputo. (MM)