LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

BEIRA: Que lições tirar do ciclone IDAI

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Estamos a dar passos para os lados, nem para frente nem para trás. Não conseguimos andar para frente. Estamos na cauda, não podemos ir para trás. Temos de criar uma consciência cívica para mudar o cenário. Extraído de uma conversa com o amigo Dangala.

No espaço de dois anos escrevi meia dúzia de crónicas sobre a Beira, capital da província de Sofala. Em todas essas crónicas, em que dizia que a Beira estava sem eira e nem beira, não escapei a fúria dos meus detractores. As críticas não me fazem mal, a estupidez sim. A autenticidade provoca inimigos, o mais importante é sermos perseverantes. Lembro aqui as palavras de um velho amigo, a propósito do poder da perseverança, que dizia: “Quando um barco, no alto-mar, tem um rombo, a solução não é abandoná-lo, mas juntar sinergias para tapar o buraco e salvá-lo. No meu percurso marítimo, sou testemunha de almas ousadas que foram engolidas pela fúria das águas e tubarões, na sua tentativa vã de se escapulirem. Mas nós, que perseveramos, ainda somos.

Há muito que a cidade da Beira estava a rebentar pelas costuras. Crescia sem ordenamento territorial, o que criava conflitos e impactes socioambientais, edifícios em ruínas e saturados, “casas” construídas de material precário, proliferação de mercados que produziam toneladas de imundice por dia, buracos astronômicos, pobreza acentuada e violência extrema, demonstrava uma tragédia iminente. O ciclone tropical IDAI, que fustigou a cidade nos dias 14 e 15 do mês em curso, apenas vestiu a “capa do diabo”, destruindo o que já estava destruído. Por outras palavras, são os “ciclones humanos” (a perversão das políticas públicas) que mais fustigam à Beira.

A requalificação da cidade, aliada à reestruturação e à capitalização das instituições públicas de protecção civil, bem como o “desgavetamento” dos planos de prevenção e mitigação dos desastres naturais, decerto que os efeitos do IDAI teriam sido menores. A metamorfose da cidade, que crescia sem o mínimo de segurança, levou a edilidade a pensar que Beira estava a desenvolver-se.

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Hoje a Beira caiu em desgraça. Na verdade, a “certidão de óbito” da segunda maior cidade do país foi passada aquando da sua municipalização em 1998. Os partidos políticos fizeram e ainda fazem do Chiveve uma cidade de predominância partidária e não uma terra onde pudessem depositar a melhor semente cujos frutos alimentariam abundantemente todos os beirenses. Quando se governa pela afirmação política concreta, as pessoas deixam de ter valor.

Governar é um exercício prático de bondade e de solidariedade. O sucesso de qualquer governação está na pluralização das oportunidades e no sentido de justiça. São dois pedais da mesma bicicleta. Concordo, a propósito, com a ideia de que o poder “funciona como os pedais de uma bicicleta, são determinantes para poder pedalar a bicicleta”.

A reconstrução da Beira vai exigir a coragem dos moçambicanos de guardar as diferenças políticas nas “câmaras frigoríficas”. Espero que os decisores políticos consigam encher o peito de coragem e de mãos dadas consigam erguer a Beira como o fez Marques de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo), após o terramoto de 1755 que destruiu a cidade de Lisboa.

Zicomo (obrigado) e um abraço nhúngue aos profissionais do centro de saúde do posto administrativo do Zóbuè que, com “precisão de um relógio suíço”, diagnosticaram e varreram a gripe que me deixou alguns dias de cama. Vale a pena seguir os pergaminhos da nobreza de carácter dos profissionais daquele centro hospitalar.

NOTA: É uma autêntica vergonha a actuação de alguns agentes de trânsito e da polícia municipal de Tete. Os chapeiros são obrigados, todos os dias que se fazem à estrada, a alimentar um bando de sanguessugas e corruptos que pululam nas vias públicas. Com ou sem irregularidade nas viaturas, aqueles agentes decidiram, ilegalmente, legalizar a corrupção, cobrando por cada chapa 100 o valor de 100Mt. São dezenas de paragens criadas para extorquir. Contou-me um motorista que me transportou de Zóbuè à Chingodzi, vítima das mandibulas de agentes corruptos, que mais da metade da receita diária é para amortizar os apetites dos polícias. Quando a farda está no corpo errado, o demónio da corrupção manifesta-se contra a ordem e segurança públicas. Perde-se a autoridade (se alguma vez existiu) e o país adia o sonho de construir um verdadeiro e forte estado de direito. Fica aqui o meu fervoroso apelo para o enérgico e competente comandante geral da polícia actuar.

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