LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

O comboio dos ratos ainda não chegou a estação de Iapala

em CRÓNICA/DESTAQUES/OPINIÃO por

Tributo ao Professor Salvador Maurício, um dos maiores compositores do moçambique pós-independência que terá sido dos primeiros artistas a ver sua obra censurada.

Uma locomotiva composta por cerca de 200 vagões pára bruscamente no apeadeiro que antecede a estação de Iapala. Um peso suspeito pressiona os trilhos para o susto dos operários dos verdes campos agrícolas localizados ao longo do corredor, que tratam de fazer o habitual grito de passagem de informação. Fujam da linha, o comboio vai descarrilar. Um homem de voz possante grita para ser ouvido em toda aldeia.

Um casal que aproveita a machamba vazia de crianças para fazer amor abandona tudo e vai a correr em direcção a linha férrea com tal urgência que o homem trocou os calções com o chapéu e a mulher enrolou a capulana aos seios, relegando as pernas ao destapamento. Os vizinhos atónitos, ficaam sem saber se correm para a urgência do comboio que abana como se um terramoto estivesse a acontecer ou se ganham coragem de comunicá-los que estão apresentados a residentes do jardim do Éden.

O que se passa? Pergunta o homem de corpo nú. O comboio parou bruscamente e os carris tremem, não sabemos o que está acontecer. A gente sabe que o comboio geralmente leva muita carga e esta plataforma aguenta tudo. Responde um outro. Já agora, pelos vistos Adão e Eva estão aqui em Iapala, comenta uma senhora que segura um bebé no colo para uma histeria de riso colectiva.

As gargalhadas deram a entender ao casal que devia voltar a esconder-se e trajar-se devidamente, mas já se fazia tarde. Fogem para sentidos diferentes e mesmo vestidos continuam envergonhados a ponto de mudar de residência para fixar-se em Nipepe, lá para o grande Niassa.

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Um ancião de corpo já fatigado e olhos vermelhos de tanto silêncio explica que o comboio vinha de Cuamba, carregado de ratos que roeram tudo, esvaziando celeiros de mapira e milho, sacos de feijão e tambores de cebola e repolho, deixando que as crianças herdassem anos de madrugadas de pranto. São ratos barrigudos cujo peso faz qualquer locomotiva perder potência. São ratos que ainda não chegaram ao destino. Provavelmente esta pausa, os faça recuar para roer o que ainda resta por estas terras.

E se trocarmos de maquinista? Os ratos não fogem? Pergunta um jovem que frequenta a Escola Primária Completa de Iapala. O velho pausadamente explica-lhe que os ratos são perigosos. Metamorfoseiam-se. Os ratos ganham uma nova cor em cada época, mas continuam ratos. As vezes se fica com a impressão que lutam entre si fazendo os proprietários dos celeiros dividirem-se em debates de escolha entre os melhores ratos e os piores ratos. Mas é preciso perceber que todos eles alimentam-se de produtos agrícolas. É preciso recordar que ainda não surgiram ratos que sabem nadar. O seu comboio não desaparece. Quando sintonizamos os rádios para ouvir a notícia de que o comboio dos ratos seguiu a linha férrea toda até ser engolido pelas águas do porto de Nacala, eis aqui, nem sequer chegou a estação de Iapala.

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