LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

ZAMBÉZIA: “A província Rebelde” [01]

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Um estudo divulgado recentemente pelo IESE — Instituto de Estudos Sociais e Económicos, uma organização moçambicana de pesquisa independente classifica à província central da Zambézia como uma região “rebelde” e hostil à influência do partido que administra o Estado desde à fundação da nação moçambicana.

O investigador Sérgio Chichava analisa os resultados eleitorais da província da Zambézia desde 1994, e explica a tendência do voto dos cidadãos residentes nesta circunscrição geográfica.

No artigo Uma Província ‘Rebelde’: O Significado do Voto Zambeziano a favor da Renamo”, publicado no livro “Cidadania e Governação em Moçambique” o académico e director cientifico daquela organização de pesquisa, defende que os cidadãos da província da Zambézia sempre votaram maioritariamente na Renamo desde as primeiras eleições no País, tal facto segundo justifica ”é consequência directa da hostilização e marginalização desta região por parte da Frelimo, mas enraizada num longo prazo histórico que produz um voto quase “autonomista” contra o que é “Moçambique”. Com efeito, este voto exprime também um difícil e longo processo de conturbadas relações com o Estado. Os Zambezianos sempre se sentiram marginalizados, quer pelo Estado colonial quer pelo Estado pós-colonial. Para os Zambezianos, o Estado colonial sempre privilegiou certas regiões do país, tais como Beira, Nampula e, sobretudo, Lourenço Marques (actual Maputo) em detrimento da Zambézia. A riqueza zambeziana seria utilizada para desenvolver essas regiões. Este sentimento de marginalização faz-se sentir já no final do século XIX, quando, depois da Conferência de Berlim, os últimos prazos foram vencidos e foram substituídos pelo capitalismo das companhias, mesmo período em que a capital de Moçambique foi transferida da Ilha de Moçambique, no Norte, para Lourenço Marques, no extremo Sul. Este capitalismo colonial está na origem dos desequilíbrios regionais do país, cujos sinais fortes foram a emergência de duas novas cidades no centro e no extremo Sul, Beira e Lourenço Marques, e, consequentemente, de “novas elites modernas”. Por outro lado, este capitalismo teve impactos negativos na Zambézia, pois as elites locais (antigos prazeiros, seus filhos ou seus descendentes) não conseguiram adaptar-se ao novo sistema, tendo sido transformadas numa espécie de lumpen-elites. Igualmente, nenhuma das companhias estabelecidas nesta região investiu seriamente para o seu desenvolvimento, apesar de os contratos celebrados com o Estado assim o preverem. Não houve desenvolvimento de uma indústria digna desse nome, nem um sério investimento na construção de infra-estruturas socio-económicas, tais como estradas, linhas férreas e pontes. Por exemplo, a Sena Sugar Estates, a mais importante companhia estabelecida na Zambézia, que tinha uma fábrica de açúcar no Luabo e plantações em Mopeia, não conseguiu construir uma estrada que ligasse estas duas regiões. Apesar de ter sido transformada na província mais importante do ponto de vista agrícola, a Zambézia não desenvolveu infra-estruturas socioeconómicas dignas de menção. Em 1973, quando da aprovação do último plano de desenvolvimento do tempo colonial, a Zambézia, com apenas 165,6 km, era a região com menos quilómetros de estradas asfaltadas. Nenhuma estrada ligando o Sul e o Norte da província fora construída. Durante a época das chuvas, vastas zonas desta província ficavam completamente isoladas e a circulação rodoviária, interrompida. Segundo Vail e White (1980: 3), a Zambézia é um exemplo paradigmático de como o capitalismo colonial subdesenvolveu a áfrica”.

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O estudo descreve a Zambézia como “uma das províncias mais afectadas pela guerra civil que opôs durante cerca de dezasseis anos (1977-1992) o regime da Frelimo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), fazendo milhares de mortos e destruindo a economia de Moçambique. Só para se ter uma ideia do impacto da guerra nesta região, pode-se dizer que no seu auge, em 1986, cerca de 1,5 milhão de pessoas, ou seja, mais da metade da população local, estimada em cerca de 2,5 milhões de habitantes (segundo o censo de 1980), encontrava-se directamente afectada e sofria de todo o tipo de insuficiências: fome, doenças, falta de vestuário adequado, etc. As comunicações entre a capital da Zambézia, Quelimane, e os distritos estavam completamente paralisadas. Os únicos meios de transporte eram o avião ou o barco, quer por causa da insegurança, quer porque as estradas tinham sido completamente destruídas. A maior parte da população rural tinha-se refugiado noutras províncias menos afectadas, em Quelimane e nos países vizinhos, sobretudo no Malawi. Segundo Hanlon (1996: 20), no fim da guerra, a Renamo ocupava mais de metade da província da Zambézia. Tal como noutras situações, a Renamo foi acusada pela Frelimo e seus próximos de ser a principal responsável pela situação catastrófica em que se encontrava a Zambézia” e acrescenta “com a introdução da democracia multipartidária em 1990 e a assinatura dos acordos de paz entre os beligerantes, em 1992, a realização de eleições periódicas tornou-se possível. Desde então, realizaram-se três escrutínios eleitorais no país, em 1994, 1999 e 2004. Nestes escrutínios, a Zambézia sempre votou maioritariamente a favor do antigo movimento rebelde. Como explicar isto à luz da precária situação pós guerra em que a província se encontrava, e das acusações da Frelimo ao papel da Renamo na origem desta situação? O objectivo deste artigo é, pois, tentar explicar as razões pelas quais a Zambézia tem votado a favor daqueles que, segundo a Frelimo, eram simples “bandidos armados”, “agentes ou instrumentos do apartheid”, sem nenhum objectivo político senão o de destruir o país, semeando dor e luto” o artigo segundo justifica o autor analisa“os discursos proferidos por cada candidato nesta província, de mostrar como a Renamo se tem aproveitado de opções equivocadas da Frelimo para tirar dividendos políticos. Na segunda, são discutidas as razões que levam os Zambezianos a votar a favor da Renamo. A ideia defendida aqui é que o voto zambeziano a favor da Renamo é consequência directa da hostilização e marginalização desta região por parte da Frelimo, mas enraizada num longo prazo histórico que produz um voto quase “autonomista” contra o que é “Moçambique”.

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