LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

Um “nakhavoko” em noite de Glasgow

em CRÓNICA/DESTAQUES por

O último navio cruzeiro vindo de Greenock acabara de aportar, enquanto um homem que durante a infância caçou passarinhos a fisga nas montanhas de Mizela e Mitucue, sorvia o seu chá da noite no Hilton Garden, como forma de preparar a alma para as caminhadas que seguir-se-ião pela Jamaica Street.

O barco abanava tanto que as águas do Rio Clyde perderam o seu azul e a música de Susan Boyle e Franz Ferdinand já não tinha o mesmo sabor aos ouvidos. Opa. “Queria tanto descobrir a música escocesa, essas terminações recordam-me a nossa Mariza, aquela fadista que o índico doou a Portugal. Que chatice” pensa.

Lhe vêm a memória, os filmes que assistiu e os pesadelos que marcaram sua infância, entre eles, o fantasma do homem que morreu de feitiço e por ter sido antes do tempo, não descansava em paz e imagina-o, flamejando as águas.

Retira um lencinho do bolso para secar o rosto que teimava humedecido e para a sua surpresa a humidade alcançou o tapete graças a um descuido o fez deitar o chá. “Ah devem ser os espíritos que me estão a pedir. Vovó Fulano, tio Yipsolon, tia Xix, tomem vocês também e protejam-me desta calamidade que quase mata-me. E lembrem-se, se eu voltar bem, trago-vos lençóis, comida e bebida” aproveita a pressão para falar com os seus mortos tal como mandam os costumes da sua África.

“Good evening sir. You want smock?” Gentilmente o servente de mesa lhe serve uma suruma já enrolada. “E eu nunca fumei. Mas espera. Dizem que a suruma espanta os feiticeiros” pensa e imediatamente a seguir responde “Yes. Thank you” e com o seu Inglês improvisado acrescenta, “Please, I want John Walker too”.

 Solta fumo para o ar, um gole para boca e encacha um binóculo para o Rio Cleyde. Tudo isto levou tempo suficiente para que o navio atracasse ao Porto de Glasgow. Para o espanto do jovem nakhavoko, nome dado aos pescadores do litoral da sua terra, nenhum dos ocupantes demonstrava estar em pânico.

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“Parecem-me ocupantes com rostos serenos” – comentou em português com o seu amigo britânico que havia estado em Leiria nas últimas férias. “Fica a vontade senhor. O navio que chegou levava consigo políticos de um país de África” – acalmou o britânico. “E trazem consigo todos espíritos”. “Antes se fosse”. “Você não acredita que os espíritos andam com a malta”. “Acredito meu amigo. Já estive na Tanzânia e me foram apresentados muitos espíritos. Mas não é o que estes políticos trazem. Eles transportam uma outra coisa que faz com que as águas do Clyde também não aguentem e tremam”.

O nakhavoko voltou a soltar fumo para o ar e lançando fixamente olhar ao britânico implorou que lho dissesse o que aqueles políticos do seu continente traziam. “Aquelas são pessoas leves que carregam consigo almas pesadas de mentiras e falsidades. Por isso que essas águas denunciam porque também não falta por aqui, a magia da água que mesmo na grande África é impecável”.

A lucidez abraçou a consciência do nakhavoko que recordara das eleições autárquicas havidas há dias no seu país. “Tenho de voltar para Edimburg no primeiro comboio, as minhas aulas de doutoramento começam já e pelos vistos há muita coisa por estudar” – disse pegando no seu casaco de napa e chapéu de Palha acrescendo um sinal de despedida ao britânico que falava português e ao servente de mesa do Hilton Garden.

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