LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

RESGATANDO MEMÓRIAS: AS REFLEXÕES DO ESCRITOR ARRONE FIJAMO

em DESTAQUES/OPINIÃO por

Por Viriato Caetano Dias

Não há regimes políticos perfeitos, tal como não há nenhum poder instituído, por mais legal e legitimado que seja, que consiga cumprir a cem por cento todos os requisitos que lhe são próprios. Padre Manuel Maria Madureira da Silva, Questões Fraturantes, 2016, p. 29.

Nesses dias ando nostálgico. É o hábito de, apaixonado pela História, mexer no vespeiro. O objectivo não é julgar ou confrontar o passado, mas o de olhar para o retrovisor da História para compreendermos e encontrarmos variáveis para os interesses do futuro. A História é mesmo isso, o futuro, não é o cemitério do passado. O passado é apenas o alicerce. Como alguma vez disse-me o Professor José Mattoso, numa palestra na Universidade de Évora, o importante não é gostarmos de História, mas estar convencido que sem ela não é possível compreender o mundo em que vivemos.

Felizardo de Jesus Fijamo, último filho do escritor Arrone Fijamo, confiou-me parte significativa do espólio literário de seu pai. O meu falecido amigo David Aloni dizia que, não fosse os “assados” políticos, Arrone Fijamo seria considerado o maior e melhor escritor de África porque o seu escrito erudito, de clara exposição e com grande cultura, transcende as fronteiras nacionais. E tinha razão Aloni, quem lê seus escritos percebe que há algo de divinal neles. Num país de vistas curtas, Fijamo apresentava-se com vistas largas, dando terapias para os problemas que ainda hoje afligem o nosso país. Apaixonado pela escrita, Fijamo, como qualquer escritor, militou a favor dos mais fracos e contra as injustiças perpetradas por adamastores do seu tempo.

No texto Tese para a candidatura à presidente de Moçambique-loucura democrática nas estepes e florestas da lendária Zambézia, Fijamo escreveu o seguinte: “Para paz total em Moçambique, desarmamentos e desmobilizações não resolverão nada. O que é preciso é dominar as razões das delinquências do carácter do povo com harmonizadores métodos agradáveis, clara fraternidade, manifesta honestidade dos dirigentes e promessas baseadas nos factos exequíveis.”

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Este parágrafo resume aquilo que me vai na alma e que me apoquenta. O desarmamento da Renamo é necessário e urgente. A questão que se coloca é, desarmando a Renamo, estaremos também em condições de desarmar a corrupção, a burocracia e a inércia de alguns dirigentes que teimam em descredibilizar as acções do presidente Nyusi? Infelizmente encaramos com demasiada bonomia a corrupção. Desculpamos, aceitamos, atribuirmos penas muito pequenas; esquecendo que a corrupção pode fazer bastante mais mal do um assassinato simples.

A juventude desempregada e sem perspectiva de vida assume-se mais perigosa que a Renamo armada. Por essa razão, Fijamo exorta ao governo a dominar as razões das manifestações violentas do povo. O desarmamento e desmobilizações, para serem eficazes, devem se fazer acompanhar de boa governação e políticas públicas exequíveis, para a melhoria do bem-estar social dos moçambicanos.

Tenho a convicção de que o voto da juventude foi determinante nas últimas eleições autárquicas, visto que o governo ainda continua à procura de soluções para desasfixiar a durarealidade em que os jovens estão sujeitos: sem emprego, sem habitação e sem destino. A justificação do governo é a de que há pouco dinheiro para adoptar políticas de inovação sectoriais e de empreendedorismo, para captar mais-valias, talento e promover o auto-emprego. A esse propósito devo dizer que aprendi, de um velho amigo alentejano (JRS), que quando há pouco dinheiro para distribuir deve dar-se mais a quem mais precisa. E se, se tiver em conta o mérito de quem quer estudar, ainda mais. A nação é de todos. Os jovens que tiveram a sorte de conseguir emprego vêem-se agora na contingência de pagar a dívida que temos hoje e outras que serão contraídas quase sempre para lubrificar os beiços dos “mandões.”

No texto em alusão, o escritor zambeziano é peremptório: “Moçambique é um rico pomar de que somos legítimos donos por herança. Para a sua conservação, a nossa obrigação é preservá-lo, vendendo somente os frutos e não as árvores. Quanto mais saudável e rico for seu povo, mais famoso se torna o prestígio da sua personalidade.” Com o trecho, Fijamo procurava chamar a atenção do governo sobre a efemeridade dos recursos naturais e a necessidade dos seus proveitos beneficiarem o povo moçambicano, porque, como sabiamente escreveu o Padre Manuel Maria Madureira da Silva, “não pode haver verdadeiro progresso enquanto este não se desenvolver numa base moral.”

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Nessa lógica para desenvolver Moçambique, Fijamo propõe três medidas:

  1. Paz em primeiro lugar: mas não paz para fomentar a expansão prejudicial da impiedosa exploração do comércio estrangeiro;
  2. Moral em segundo lugar: mas não moral para estupidecer e escravizar o povo de Moçambique, aconselhando-lhe resignação anti sagacidades vampiras das gentes despidas de escrúpulos, que se radicaram ou assim pretendem no vasto espaço do território Moçambique; e
  3. Progresso em terceiro lugar: mas não progresso na infinita e incógnita caminhada para a Pátria do Cristo e do Maomé.

Não consigo ler Fijamo sem ver assomada lágrimas no canto dos olhos, tal é a minha profunda admiração por este escritor que habita, actualmente, na “Pátria de Cristo.” Zicomo e um abraço nhúngue à Bela, bela menina, que caminha a passos de gigante para a celebração do matrimónio.

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