Psicologia da (in)Tolerância: entre eu e ele, e nós e eles

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Em resposta ao convite, ou melhor, ao desafio feito às docentes do Departamento de Ciências de Educação e Psicologia, da Universidade Pedagógica- Delegação de Quelimane (UPQ), para que estas pudessem reflextir sobre “Psicologia Hoje: pertinência e desafios”, no âmbito do dia do/a Psicológo/a, que se assinala a 27 de Agosto, sentamos para psicologar.

Importa frisar que este departamento conta com dezanove docentes, sendo seis do sexo feminino, e dessas seis, apenas três aceitaram este desafiante convite, a saber: i) Annegret Mocala, que se propôs falar sobre a “Pertinência e Desafios da Psicologia das Organizações“; ii) Piedade Alferes, que se propôs fazer uma abordagem acerca da ” Psicologia Hoje, pertinência e desafios da Psicologia Infantil”; iii) e Dulce Maria Passades Pereira (eu), que propus-me falar sobre as “Nuances da Psicologia Social e Cultural“, pois, para o nosso actual contexto, estas formas psicológicas são elásticas e funcionam como uma luva para as tão recentes Formas de Psicologia, ou melhor, a Etno Psicologia, a Psicologia Política, a Psicologia da Cidadania e, quiçá, a Psicologia da Participação, a Psicologia do Eu e do Outro (por mim forjada, recentemente, no âmbito dos “nossismos”), a Psicologia da Totalidariedae e a Psicologia da Ditadura.

O simbólico e em emblemático auditório da UPQ estava repleto de docentes e jovens estudantes das Psicologias (Educacional, Social, Organizacional e do Consumidor), assim como estudantes das outras das áreas, todos ávidos pela possibilidade de interagir em modo “out of box” com as docentes e colegas pois as atitudes e os comportamentos destes na sala de aula “inside the box” seria diferente em ‘modo auditório’.

Das minhas colegas Mocala e Piedade, pôde ouvir o seguinte, entre várias coisas importantes: a importância da figura do psicólogo organizacional face as nuances da competividade, a conduta dos trabalhadores, relações grupais na organização, os conflitos e, sobretudo, como a organização reage às TICs, quando as TICs aparecem em substituição da força humana (Mocala); a importância de pensar a educação de infância como uma fase importante para o desenvolvimento harmonioso dos infantes, as manifestações psíquicas das crianças nas suas nuances linguísticas, emocionais, perceptivas, físicas e ambientais, sendo necessário, para tal, que tenhamos condições humanas, programáticas e de insfraestrutura, face a este desafio (Piedade).

Eu, por ser alérgica a torres de marfim, a boxs e a cavernas, propiciei-me ao prazer de esmiuçar a elasticidade contemporânea da Psicologia Social e Cultural na narrativa Moçambique. Academicamente pensado, Moçambique actual é o tal palco e o tal laboratório social à moda do Chicago School, a grande peça teatral onde as várias personagens desempenham os seus papéis mascarados e mascaradas, uns mais próximos de grandes papéis e outros mais próximos de papéis grandes, estes últimos, infelizmente, são poucos e, com o tempo, se sentem isolados. Ou melhor, a narrativa Moçambique actual é um campo bastante fértil e rico que não deve ser ignorado pelas academias, pelos eventos e episódios ditos atípicos, por uns, e pelas dinâmicas sociais que estes eventos irrompem no seio da cidadania.

O que seria ano atípico à luz da Teoria das Representações Sociais?

  • O facto de estarmos perante um cenário teórico onde as ‘boas ideias não têm cores’ e sentirmos o impacto inverso?
  • O facto de o nosso “achismo” achar que instituições da legalidade estão em modo inverso?
  • O facto de defendermos a pluralidade de ideias e sermos alérgicos a pluralidade?
  • O facto das massas acharem que as instituições e organismos em ‘modo eleições’ estão contra elas?
  • O facto de estarmos a viver em modus “nossimos” (ou estás comigo ou estás contra mim)?
  • O facto de estaramos a reproduzir o ethos candidatos (quantidade) versus candidatas (qualidade)?
  • O facto de estarmos a rumar para eleições sem as cerejas?
  • O facto do nosso “achismo” achar que a nossa festa eleitoral não terá música?
  • O facto do Direito ter-se transformado no el dorado na narrativa Moçambique?

Importa salientar que a Teoria das Reprsentacoes Sociais foi desenvolvida num contexto ocidental, na França, virada para a apropriação da psicanálise no espaço social francês. O que se pretende aqui fazer é a moçambicanização da teoria no campo construção do ethos eu-ele, nós-eles. A psicologia, assim como a psicologia social, ainda são campos científicos por lapidar em Moçambique e sobretudo quando se trata de cruzar este campo com as nuances do nossismo político. A questão central apresentada por Moscovici (2003) foi o facto de considerar as representações sociais como uma forma de pensamento que irrompe no seio dos grupos, como uma forma de comunicação grupal, nas suas trocas e contactos quotidianos. As representações sociais são uma forma de conhecimento do quotidiano e também são formas de socialização dentro dos grupos (Flick, 1994).

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Mas, como muito bem colocou um estudante na palestra, “o que pode a Psicologia Social e Cultural fazer face ao cenário onde as três força políticas no país não se entendem em nome povo?”.

A Psicologia Social é uma área da Psicologia engajada com o comportamento social, com a comunicação grupal, com a interacção social e com a mera expectativa da tal intesecção. Esta interacção é vivida e não é abstracta, ou seja, o tipo de sociedade que temos hoje é transferida para as várias narrativas sobre o que é Moçambique. A Psicologia Cultural é o braço da Psicologia Social pois o que nós levamos aos nossos grupos sociais é fruto dos nossos constructos culturais, as nossas atitudes, os nossos preconceitos, os nossos estigmas, e os nossos estereótipos culturais, que encontram nos grupos de interacção um canal de legitimação (por vezes perigosos pois podem levar à (in)tolerância ou aos “nossismos”).

A radiogradia actual moçambicana não deve ser percebida e analisada fora do ethos comportamental e percepcional das massas. Ou melhor, o que significa para as massas o que nós consumimos diariamente nas redes sociais? O que significa para as massas as questões de legalidade? Que entendimento as massas têm sobre as Políticas Públicas? Que entendeimento as massas têm sobre as questões político-partidárias?  As massas funcionam como um barómetro relevante das questões governamentais ou na governamentabilidade.

A academia, no seu melhor, nos oferece teorias ou modelos de análise como teorias pós-colonais, teorias multiculturais, teorias da descontrução, tudo numa lógica pós-moderna. O que nos cabe fazer não é a reprodução das mesmas, mas tambem não precisa ser a invenção da bicicleta, mas sim uma abordagem local, se necessário uma abordagem glocal da narrativa Moçambique sem deixar de lado o ethos cultural pois o que está a acontecer em Moçambique, nos campos político, cultural, económico e da cidadania deve encontrar uma fórmula (mágica ou não), localmente.

Vamos pensar juntos e juntas:

  • Gostamos da diferença?
  • Convivemos com a diferença?
  • Somos tolerantes?
  • Somos intolerantes?
  • Como convimemos com quem pensa diferente?
  • Pensar diferente é errado numa sociedade livre?
  • Num Estado de Direito Democrático é possivel ser diferente?
  • Por que colocamos cores no país?
  • Podemos pensar num país multicolorido onde existe espaço de liberdades para todas e todos?
  • Podemos pensar num país onde os cabeças-de- lista têm direito a concorrer pelos seus partidos?
  • Podemos sonhar com um país onde, independentemente da sua idelogia, cor, sexo, género, filiação, a pessoa pode ser querida e amada?
  • Podemos sonhar com uma sociedade onde cada um é livre de fazer as suas escolhas?
  • Podemos ser ‘out of box’ sem medo, sem a psicologia do medo?
  • Podemos amar os nossos (inimigos)?
  • Queremos uma sociedade de falas ou de silêncios?
  • Como ressignificar a relação eu- ele e nós-eles?´
  • É possivel sairmos da caverna do “nossismo” político (Psicologia do Eu e dos Outros) ?
  • Podemos ressignifiar o nosso status quo de ser, estar e fazer de forma inclusiva e diversificada?

O novo por excelência nas memórias colectivas causa estranheza, resistência, e pode causar falta de percepção, mas precisamos entender e aceitar esta nova forma de ser e estar em Moçambique, ou melhor, precisamos perceber este Moçambique pluridimensional, rico pela diversidade e não pelo consenso.

Hannah Arendt, num outro contexto, o de uma Europa nazista, fala sobre a origem do totalitarismo associado, entre vários aspectos, ao emergir de uma política no seio de uma pequena elite ou burguesia, a uma forma de degradação dos direitos dos cidadãos e ao emergir de uma forma de governação associada a uma ideologia de medo, de terror e de silêncio. Direitos humanos, direito a ter direito, liberdade para ser e estar na sociedade e a liberdade de expressão são alguns dos cavalos-de-batalha políticos da filósofa num cenário de crise de valores e cidadania no contexto europeu nazista e fascista. Por que Arendt no palco moçambicano?

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No campo da Psicologia Social, surge a dita the psychology of dictatorship, proposta pelo psicólogo social Fathali M. Moghadam, onde, primeiro, chama a atenção para esta forma de psicologia com a qual podemos conviver sem ganharmos consciência da mesma; segundo, chama a atenção ao facto da Psicologia da Ditadura analisar as formas de comportamento, de atitude e de prática que emergem no seio da política e da sociedade em momento de crise e de social change, ou melhor, como as nossas elites políticas reagem às mudanças, às pressões e, para o caso moçambicano, como a the psychology of dictatorship reage à lógica eu-ele, nós-eles.

A política, a história, a cultura e, quiçá, as tradicionais ou ethos partidários devem ser analisadas como categorias no campo da Psicologia da Ditadura. O autor defende que as formas de ditadura actuais são anti-democráticas e, no contexto moçambicano, a democracia é um valor consagrado pela Constituição da República, mas, na prática, como se manifesta esta forma de governação, com ou sem tolerância? Almejamos ser actores activos no processo quotidiano da consolidação do Estado e, para tal, a participação e o acesso à informação e à oportunidade de participar são fundamentais para este fim. Importa frisar que as ditaduras, assim como os ditadores, legitimam-se, criam-se e formam-se naquilo que chamaríamos o processo político da governação.

Para o contexto moçambicano, com base nalgumas referências da mãe de todas as ciências, ‘filosofia’, por um lado, e com base nas referências na ciência da alma, espírito, mente, consciência e agora comportamento e processos cognitivos, ‘psicologia’, penso como a actual conjuntura social, económica, política, ou se aceitarem homo oeconomicus e homo politicus, socializaram ou mudaram o ethos do cidadão moçambicano. Para tal, precisamos elaborar ou pensar numa Psicologia do Eu e do Outro moçambicanizada, visto que a nossa cultura de ser, estar, saber e saber fazer não se manteve tácita face às actuais conjunturas locais, glocais e globais. Vivemos uma espécie de ficção nas nossas vidas, nos é dito, de forma silenciosa, que aquilo que estamos a ver não é verdade, vivemos uma falsa realidade, onde ser diferente e pensar diferente se transformou em um grande perigo.

Chamo aqui atenção para a Psicologia do Silêncio instaurada no seio da sociedade. Se falas, és do contra, se falas, és da oposição, se pensas diferente, não és patriota, não és nacionalista, e as redes sociais aparecem neste contexto como uma contra-cultura onde as pessoas encontraram um fuga ou um espaço de liberdade. Pois, para a Psicologia, é importante que as pessoas tenham um espaço para falar, para serem livres, mesmo que seja no espelho da casa de banho, ainda que este seja aquele espaço único onde podes dar um grito de liberdade.

O que o totalitarismo, o que a Psicologia da Ditadura, o que a Psicologia do Silêncio interessam ao homo oeconomicus e homo politicus moçambicano no processo de pensar o país tolerante?

Em nome do povo precisamos agir de forma cristalina e nobre, pois o povo merece, não só pela bio-política e pelo bio-poder, mas porque sem o povo não seremos nada.

A tolerância é boa e aberta.

A intolerância é fechada e sufocante.