O atum de Mitemane[1]

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Enquanto sentiam o cheiro da brisa da quase que abandonada casa fresca da praia da Costa do Mar em Memba, onde Atija e Momede decidiram passar a sua lua-de-mel, chocam as taças de vinho e entreolham-se. “É um prazer estarmos novamente aqui na nossa vila a celebrar este momento único de nossas vidas” – Diz Momede.

A casa fresca é na verdade um alpendre a beira-Mar que se localiza no fim da rua da EPC estabelecendo um frente a frente com o palácio do Sr. Administrador que diz-se ter sido destruído pela guerra e reconstruido durante o consulado de NikireKire, aquele filho da casa que a tradição oral refere ter feito milagres ao fazer loabs para que chegasse ao distrito a energia de rede nacional, antes que muitos outros distritos, inclusive os mais desenvolvidos tivessem.

Os seus olhos brilham de alegria quando vêm chegar de Mulawe barcos carregados de peixe, mas entristecem-se por saber que a praia da costa do mar já não acolhe aquelas partidas de futebol e voleibol aos domingos.

– Os miúdos já não vêm jogar futebol ou voleibol aqui na praia?

– Como achas meu querido que em plena era da televisão as crianças ainda saibam jogar a bola e saltar a corda?

– Temos de tudo fazer para que o nosso filho ao menos saiba colocar os pés no chão antes de por as mãos no remote.

– Se depender de mim, sabes que assim será meu príncipe.

Enquanto a conversa roda e o conteúdo das taças abraça o estomago, Nhanlan’mateiaca chega perto de si aliciando-os a comprar duas errakhes[2], a um preço bastante alto para o que estavam habituados.

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– Olá. Agradecemos o gesto, mas não podemos comprar porque não temos essa quantidade de dinheiro que nos pede – respondeu Atija.

– Opa. Tudo subiu de preço e para o nosso espanto a comandante da Capitania decidiu implementar taxas para a pesca de atum em Mitemane – respondeu Nhalan’mateiaca.

– Então está a se pescar muito? – Pergunta Momede.

– Não. Parece que o carvão transportado através da terminal de Nacala-a-Velha está a prejudicar o nosso mar. Muitos estão a abandonar a actividade, salvo um e outro que ficam nela por amor as histórias que o mar conta – respondeu Nhalan’mateiaca.

– E porque eles decidiram implementar taxas para uma actividade que tem sido mais para manter o tecido social e não propriamente, o lucro? – Aparentemente furioso, volta a questionar Momade.

Antes mesmo que tivesse uma resposta, Caiser, filho do Sr. Américo, um dos gigantes da pesca do atum na baia de Memba, atravessa a casa fresca ao meio. Acabava de abandonar a sala de conferências Samora Machel para onde fora reunir-se com a directora da capitania para explicar que a implementação de taxas para a pesca do atum constituía um duro golpe ao tecido social de Mitemane e MaziMinji.

– Oh Caiser tudo bem? Acabei de ouvir com Nhalan’mateiaca sobre essa subida de taxas. O que tens a dizer – pergunta Momede.

– A capitania não pode tomar decisões sem consultar os Nakhavokos[3]. O que mais me stressa nisso é o facto de termos reunido com a directora da capitania para ouvir suas bobagens, pois ela diz que o documento não pode ser motivo de conversa porque foi aprovado pelos serviços superiores de gestão do mar – aparentemente agastado responde Caiser que se fazia a praia para uma jornada de pesca do atum.

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[1] Um povoado costeiro da localidade de Memba-Sede no nordeste da provincial de Nampula.

[2] Pau usado para escovar os dentes em alguns distritos do litoral de Nampula.

[3] Nome atribuído aos Pescadores que usam redes