LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

A receita da avó Miquelina (1)

em CRÓNICA/OPINIÃO por

Por: Benone Mateus

Não se sabe ao certo, quantos anos e o dia que veio ao mundo à avó Miquelina, mas pelas características físicas, aventa-se no período em que a produção e venda do coco, algodão e o sal eram produtos valiosos. Tempos em que andar longas distâncias a pé, era moda, e, não participar em comício do Governo era motivo de chicotes em praça pública.

 

Uma autêntica biblioteca viva, é o que pode se ouvir na aldeia. Conhece muito bem a história da comunidade. Narra os acontecimentos com conhecimento de causa, como que conjugasse o verbo no presente do indicativo. O pretérito-mais-que perfeito, não se nota no seu discurso quando compartilha alguns segredos e ensinamentos aos vizinhos ou pessoas singulares. Nenhuma dúvida se tem, quando a velha abre o seu livro, e lido pelos interessados da zona. A crença nas estórias, consultas e receitas por ela indicadas e os testemunhos que por ali passaram em nenhum momento deixou a duvidar, porque além da tamanha certeza, os seus anos de vida, prenunciava uma grande e autentica vidente conhecida na comunidade.

 

Bastava um banho de ervas com cheiro de esvaziar o estômago, para divorciar-se dos problemas. Certo dia em tarde de verão sentada junto do seu único neto, e cuspindo-lhe os problemas de saúde resultantes da idade avançada que se reflectia nas costas da anciã, passava uma moldura humana interpretando melodias de caracter fúnebre, que anunciava a despedida de um ente-querido da comunidade à última morada. De repente, manda o seu neto para dentro, para que não visse aquele cenário triste e simbólico.

 

Passado o momento, o neto não se deu tempo em perguntar a sua avó, o porque de ter agido daquele jeito. Pela força e respeito da educação mecanicamente por ele recebida. Porque palavra de uma anciã, é imperioso obedecer, para que não seja amaldiçoado, assim sentenciava o adolescente, calmamente nos seus miolos.

 

A conversa ia ganhando intensidade, onde o semblante dos dois indicava alegria por um lado, e, preocupação por outro, pelas dores que lhe impediam de ter um sono profundo. Mas no momento, o matago ia amenizando as dores, embora, o estomago da velha Miquelina, resmungar por motivos dos dentes não fazerem o seu trabalho de triturar os alimentos. Pena do estômago que não se conforma com a notícia que os incisivos, caninos, pré-molares e molares já não viviam na boca da inocente, mas os seres humanos, podia ver de forma dispersa os sisos, quando a vidente insinuava um sorriso.

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Quando o sol anunciava o término do seu espetáculo e o prenúncio da chegada da lua cheia para dissipar a escuridão, as aves já se encolhiam aos seus ninhos. O chilrear dos pássaros já dava conta uma boa noite a avó. Que fora interrompido a sua gratidão pelos assobios de homem que invadiu o quintal da anciã, com cara de preocupado, agachado saúda e diz:

 

Faz favor minha senhora!

─ Sim!? Respondeu a Dona Miquilina.

─ Teria ouvido em algures que cura as pessoas com problemas passionais!

Hum… admirou a velha curandeira, e um sorriso fingindo invadia o seu semblante.

Perdão minha senhora, ajude-me, faz favor, se por acaso conheça alguém, que possa ajudar-me seria tão grato. Sinceras desculpas, chegar assim, e quebrar a ética da boa moral, digo, chegar a essa hora da noite. Sou Alfalinho, vivo neste regulado, não importa deixar ficar o bairro. Mas careço de ajuda.

Que ajuda mesmo, meu caro? Questiona a velha curandeira, enquanto, chamava Madoba, seu neto, para que lhe trousse-se um tronco, que serviria de banco, para acomodar o esqueleto do homem.

Quando a velha fez aquele gesto, Alfalinho, achava que era a hora de ser dado a receita e matar a curiosidade que levava a casa da dona Miquelina. Enquanto o homem acomoda-se, a velha o disse.

Mwanaga ozivela, mio cadinonile, karoma ovuza diretho mukuma winaguwa. O que em língua de Camões quis dizer (Meu querido filho, eu não entendo nada disso, faz favor, vá a outra comunidade, está famosa pode encontrar-lhe algures) …

 

Alfalinho não acreditou, porque cada vez mais o seu casamento com a Nazimbire, uma mulher de origem e de tribo Cheua, estava cada vez mais difícil. Quando pensava nos seus filhos, fruto do amor entre o casal, o deixava com uma dor que fuzilava-lhe o coração. Curiosamente, esta dor se manifestava quando se encontrasse fora de casa. Quando este se aproximava no quintal, todo o sentimento, transforma-se em raiva, não espancava-lhe pelo respeito e educação que receberá dos seus progenitores. Mas o jacto de palavras e olhares que lançava a Nazimbire, servia de violência, que deixava a mulher com dissabores, que não conseguia aguentar em manter o casamento. Mas pelo amor dos seus filhos ainda digeria todas as vaias e o desrespeito que o homem ainda manifestava na sua família.

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Alfalinho, não aguentava mais, ver o seu casamento desmoronar. Ainda foi a procura de uma ajuda, como a Miquelina o tinha sugerido, infelizmente, sem sucesso. Em conversa com seu colega de trabalho, dos problemas que a cada dia tem matado o seu relacionamento, um amigo o propôs que fosse a uma velha que ouvirá ser expert na matéria, e resolveria o problema que Alfalinho estava a passar de forma tão simples como que bebesse água de coco.

 

Quando Alfalinho apercebeu-se, procurou saber da localização da famosa curandeira. O seu companheiro, com toda paciência o explicou, mas o homem, informou-o, que a conhecia e ela, a disse que não seria capaz e, desprovê de poderes de livrar-se do problema. Instou-me a procurar alguém com esses conhecimentos num bairro circunvizinho:

(Risos…). Sorriu o colega de trabalho;

─Admirado, Alfalinho, questiona, do que te rieis?

─Olha Alfa…, a dona Miquelina tem esta fama, ela não quer vulgarizar-se. Tem instado os pacientes para que não digam que passaram na sua cabana. Esta velha tem o poder de fazer e desfazer relacionamentos.

─ O quê, não me digas colega! Olha, aquela senhora, é a famosa em deixar balançado os corações dos machos neste regulado?

─ (risos…), não, meu caro. Ela não, de jeito nenhum, mas, essas meninas atrevidas de rabo grandes e peitudas, são as mentoras dessa catástrofe…

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