Transformação das normas sociais para que as mulheres Jovens possam prosperar

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One size does not fit all when we do gender

(Dulce Maria Passades Pereira)[i]

A todas e a todos, permitam-me que expresse a minha felicidade por estar perante vós neste acampamento, para falar de um tema tão relevante quanto outros, isto é, género, normais sociais, e prosperidade nas suas nuances.

Antes de começar, gostaria de agradecer a OXFAM por me ter convidado a fazer parte, como oradora, da IV Edição do Acampamento Internacional Sobre Direitos Humanos, Cidadania e Acesso a Informação 2018, e a todas e a todos que directa e indirectamente são responsáveis por eu estar cá, Dinothamalelani[ii].

Minhas senhoras e meus senhores, sou a Dulce, da Província da Zambézia, natural de Quelimane, como colocaria o saudoso “Dr.” Mussa Rodrigues, falecido cantor zambeziano, “nós somos moçambicanos da província da Zambézia”. Nas questões de género, o local onde a pessoa nasce, a cultura da pessoa, as normas locais são categorias muito importantes neste processo de construção das questões de género, por um lado, e Moçambique é por natureza e excelência um país rico pela diversidade cultural, que também produz mulheres e homens locais e contextualizados, unidos pelas diferenças, por outro lado.

Nesse sentido, a transformação das Normas Sociais para que as Mulheres Jovens possam prosperar, pode tratar-se de uma tese grande e não de uma grande tese, pois estaríamos aqui a forçar o casamento entre as normas sociais e a prosperidade das mulheres jovens.

As questões que podem ser levantadas a esse respeito são: Qual é o problema com as Normas Sociais? Queremos transformar as normais, mas não nos transformamos, ou melhor, calçamos as botas para depois pensar nas peúgas? Vamos transformar só as mulheres jovens, e os homens jovens? É possível uma transformação das normais sociais das e para as mulheres jovens sem os homens jovens? Como definimos a cultura que nos desenvolve? Como definimos ou como chegamos a conclusão que a cultura actual emperra o processo de desenvolvimento da prosperidade? O que seria cultura para nós, além da capulana que outrora representava as mulheres e hoje é disputada entre mulheres e homens? Porque gostamos do jargão práticas culturais de risco?

Diante desses questionamentos, considero que precisamos re-significar, ou melhor, precisarmos primeiro perceber o ethos das Normas Sociais para depois equacionar as possíveis Normas Sociais e Culturais por ‘transformar’, se necessário.

A minha tese é a seguinte: falamos de género, falamos de feminismos ainda como jargões ocidentais, o que dificulta e emperra na agenda das mulheres no nosso contexto, ou melhor, ainda estamos numa lógica de fora para dentro e não de dentro para fora, falamos, pensamos e praticamos as questões de ser mulher e ser homem de forma global, e não local, no lugar de criar uma lógica de ser mulher e ser homem local, glocal e, se necessário, global.

Senhoras e senhores,

O meu interesse pelas questões de género nasce nos corredores, nos fóruns e nos bastidores da Universidade Pedagógica, ou seja, existem vários jargões, representações sociais e culturais e quiçá teorias do quotidiano sobre o papel (bio)social da mulher e dos homens, no espaço académico, ou melhor, existência de uma tipologia onde as mulheres representam as capulanas e homens as calças. O foco académico aqui seria analisar e perceber primeiro, no lugar de criticar.

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Minhas senhoras e meus senhores,

Em Moçambique, em nome do desenvolvimento, em nome da modernidade, em nome da mundialização ou quiçá da globalização, os discursos e narrativas sobre feminismo e género que perpassam o imaginário moçambicano estão amplamente carregados de abordagens pré-críticas centradas em aspirações transformistas. Aspirações de transformar a sociedade, de converter valores e dar novos sentidos às relações entre mulheres e homens. O mais comum nos discursos é apelar para as práticas ditas retrógradas como os ritos de iniciação, educação informal, medicina tradicional, nas suas múltiplas facetas, os desequilíbrios de poder e iniquidade de género.

Ao trazer estes aspectos para o contexto de debates, as narrativas e discursos sobre género e feminismo, omitem e ignoram uma série de aspectos, incluem aspectos estruturais que se inscrevem na definição e inscrição a noção da cidadania na sua dimensão local, distante das macros narrativos, onde o local é pré-desenvolvido e o global responde a fasquia desenvolvimentista.[iii]

Em nome do projecto ‘unidade nacional’, assente num epistema moderno, ainda carente de epistemologias pós-criticas, alternativas e quiçá mais das ditas ‘periféricas’, surgem práticas quotidianas ligadas a falta de coesão e união entre ao diversificado e rico campo de saberes locais, conhecimentos locais, línguas locais e posturas identitárias locais. À luz do modelo teórico proposto por Boaventura de Sousa Santos – Epistemologia do Sul – urge a necessidade de não só ficar atento ao projecto ‘moderno’ mas também a outras formas de conhecimentos e saberes, ou seja, a multiplicidade de saberes pois, caso contrário, seriamos nós ainda vítimas da ‘colonização’, mas desta vez uma colonização mais profunda, colonização do saber e do conhecimento (Ramon Grosfoguel, 2002)[iv].

Aqui, penso as mulheres numa lógica da pós-modernidade, ou seja, micro-narrativas sobre as mulheres no contexto local. Frisar que pensar as mulheres localmente não deve ser visto como pré- desenvolvimento, como algo oposto ao campo científico, mas sim como uma das várias alternativas de desconstruir ou resignificar o label ‘one size fit al ’.

Senhoras e senhores,

Em nome das megas narrativas sobre a criação ou do mito do ‘homem novo’, numa lógica socialista, dentre as várias nuances, escolho aqui estas três: “abaixo lobolo”, “abaixo poligamia”, “abaixo casamento prematuro” que, à semelhança das palavras de ordem da revolução francesa, a saber, Liberté, Égalité, Fraternité, ‘simbolizavam’ a ruptura entre a tradição e a modernidade (um falso problema de intolerância). Pois considero que, no mito da criação de um projecto nacional ‘dentro da caixa’, no mito da narrativa de desenvolvimento, quando se quer pensar de forma una não se deve fazer de forma fechada e linear, mas de forma elasticamente cultural, de forma horizontal porque por mais que se tente, em nome da modernidade, matar a cultura, facilmente ou dificilmente se conseguirá.

 “Não se nasce mulher, torna-se mulher, ou seja, sexo social”

Porque o pano de fundo é o feminismo local, e depois glocal,  forjo os conceitos de Etnofeminismos e Etnogéneros aqui evocados, onde Etnofeminismo estaria mais próximo a ideologia social, cultural, política, académica e espiritual na igualdade e equidade entre as mulheres e homens dentro de um determinado evento e contexto social, que é caracterizado pelo falas, narrativas, discursos, preconceitos, formas de pensamento e formas de comunicação sobre o que é ser mulher e o que é ser homens, ou seja, um conjunto de representações sociais e culturas sobre a cidadania, a identidade, os valores das mulheres e dos homens, e o  Etnogénero uma forma de desconstrução e re-significação do papel da mulher e do homem na realidade social, ou seja, uma afirmação segunda a qual o feminismo ocidental pode não ter enquadramento no feminismo e, sobretudo, no quotidiano das mulheres e dos homens do sul global.

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Aqui, forjo o conceito de Etnogénero no qual o género significa a  construção (bio)social da identidade comportamental das mulheres e dos homens no quotidiano social nos espaços privados e públicos. Evoca o campo da Psicologia Social, particularmente a Teoria das Representações Sociais (culturais), para o campo de reflexão de feminismo e género, fazendo uma analogia com o mito platónico da caverna, pois, enquanto não nos percebermos como mulheres e homens culturais, estariamos dentro da caverna.

Minhas senhoras e meus senhores,

O Discurso Neoliberal face as questões de género

Este discurso encontra “pano para na manga” nos discursos e escritas dos académicos, alicerçados nos Mídia, por um lado, e, por outro, em nome dos projectos de desenvolvimento, agências bilaterais, as OGNs internacionais com o suporte plagiador das ONGs locais, na lógica one size fit all,

Em nome do desenvolvimento, encontramos as seguintes nuances:

  • O sul, a periferia, os ditos “países em via de desenvolvimento”, estão em posição de desvantagem na interlocução com os países desenvolvividos, e esta posição de desvantagem é muito acentuado nos framings globais na área do género;

  • O local, glocal e global, onde cada um tem a sua velocidade de perceber e fazer o género, quem ganha é o norte global, ofuscando as realidades e dinâmicas locais, isso para não mencionar toda uma tecnologia de transferência de conhecimentos, práticas e realidades que chegam a ser uma forma de violência cultural;

  • Em nome de desenvolvimento, copiamos, plagiamos, reproduzimos muito das culturas e práticas de fora, e nos esquecemos de perceber o contexto local

Minhas senhoras e meus senhores, pela atenção dispensada, Dinothamalelani.

[i] Docente da Universidade Pedagógica, Delegação de Quelimane.

[ii] Obrigada na lingua echuabo.

[iii] Os fundamentos teóricos pós-críticos, que privilegia micro-narrativas no lugar de narrativas macros e dominantes.

[iv] Precisamos para de reproduzir certas formas de colonização.

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