O custo humano da exploração de areias pesadas em Inhassunge: O pesadelo dos pobres! (2)

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Uma operação militar que já ceifou uma vida, mutilou uma criança e feriu com gravidade várias outras pessoas no povoado de Olinda no distrito de Inhassunge, província central da Zambézia. A população recusa a execução do projecto na sua comunidade e o governo da Zambézia responde com recursos bélicos. Acompanhe os depoimentos da população martirizada.

  • — Começaram a bater-lhes e estes por fim caíram no rio, arrancaram diversos bens com destaque para telefone e dinheiro;
  • — Próximo a Escola Primaria disparos sucessivos que culminaram com a mutilação de dois dedos de uma criança com as balas;
  • — Mataram um homem, furaram lhe a barriga e feriram varias outras com as balas que disparavam;
  • — Os militares mantém como refém o secretário da povoação;
  • — A África Great Wall Min­ing Development Company não conseguiu ter uma conversa boa com os nativos, onde é que vão nos reassentar, porque nós vivemos de pesca e agricultura;
  • — Se você quer casar uma mulher é preciso bater o pai? Ou negoceia de boas maneiras?
  • — A Frelimo quando lutou para independência era para libertar o homem e a terra, e é está a terra que nos estão a arrancar para entregar aos chineses, então não estamos livres! Está empresa passou em Tete, Cabo Delgado não mataram nenhuma pessoa, o que é que passa connosco? Será que não somos moçambicanos?

Está instalado um clima de terror no povoado de Olinda, localidade de Chirimane no distrito costeiro de Inhassunge. A população está sendo morta e seviciada por forças militares mandatadas pelo Governo da Zambézia. Pelo menos uma pessoa perdeu a vida semana última e um número de 7 ficaram feridas com destaque para um menor de idade que foi amputado os dois dedos da mão direita pelas balas disparadas por membros da Unidade de Intervenção Rápida — UIR que acampou desde sexta-feira última nos jazigos de areais pesadas que deverão ser exploradas pela firma chinesa África Great Wall Min­ing Development Company, Limitada. A UIR mantém igualmente como refém o régulo do povoado e oferece — lhe tratamento como se de criminoso se tratasse.

É uma operação do governo de retirada compulsiva de cidadãos das suas terras em Olinda-Inhassunge depois de varias recusas por parte da população, o recurso há armas e sevícias é o novo modus Operandi de um governo que resvalou as possibilidades de diálogo com a população naquela circunscrição geográfica.

Ao todo são 60 homens armados confirmados e que semeiam terror nos últimos dias no distrito de Inhassunge, é uma operação de intimidação da população para o abandono das suas terras para dar lugar ao projecto de exploração de areias pesadas pela firma chinesa África Great Wall Min­ing Development Company, Limitada.

A ocupação das forças paramilitares no local de exploração do mineiro criou um misto de reações que levaram a população a questionar os agentes o motivo daquela musculatura bélica naquela circunscrição, a UIR respondeu com balas que atingiram mortalmente um cidadão e um número de 7 encontram se feridas. A população residente naquela circunscrição geográfica recusou à implementação do projecto por considerar nefasto para o ambiente e os benefícios não se traduzirem na melhoria de vida na zona. Leia: Exploração de areias pesadas na Zambézia, O pesadelo dos pobres!

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Cafa Juma e Cadre Hibraimo Cassimo são moradores daquela comunidade em Olinda, estavam presentes quando a brutalidade militar teve inicio e contam todas as peripécias à que estiveram votados. O Jornal Txopela conversou com ambos

Cafa Juma em discurso directo, a versão traduzida em português.

No sábado por volta das 14 horas, chegou em Olinda uma brigada de militares armados acompanhados pelo comandante da PRM de Inhassunge, a caminho de Olinda próximo a travessia estes militares encontraram dois jovens arrastando uma motorizada avariada, começaram a bater-lhes e estes por fim caíram no rio, arrancaram diversos bens com destaque para telefone e dinheiro. [O inicio da opressão aos populares]

No prosseguimento desta intimidação os militares iniciaram próximo à Escola Primaria disparos sucessivos que culminaram com a mutilação de dois dedos de uma criança com as balas.

Ao senhor Loleje foi—lhe obrigado a confecionar alimentos para os militares, este recusou alegando não entender da arte da cozinha dado que desde a sua infância nunca se aventurou nesta actividade.

Diante destes eventos a população de Olinda reuniu-se no domingo nas primeiras horas na Escola primária, foram indicados os secretários para junto às autoridades militares perceber as reais razões dos últimos eventos e o que tencionavam, os secretários encabeçaram a fila acompanhados pelos populares para o local onde encontra-se acampado o batalhão militar, chegados lá a população não invadiu o perímetro, ficou distante deixando os secretários marcharem adiante, ficamos a aguardar as novidades para quando estes regressassem, minutos depois saíram, mas assim que chegaram houve uma pequena agitação porque todos queriam ouvir as palavras do secretario e as motivações dos militares para acamparem no local, foi dai que começaram os disparos com balas reais. Mataram um homem, furaram lhe a barriga e feriram várias outras com as balas que disparavam.

Os militares mantém como refém o secretário da povoação, fomos lá visitar-lhe mas somos controlados por forte contingente militar. Na terça-feira quando voltamos dizem-nos que o secretário já não se encontra lá e foi à localidade de Chirimane para conversar com o administrador. Ficamos preocupados, porque não sabíamos se era verdade ou não. Hoje é que ficamos a saber que afinal o secretário está encarcerado no Comando Provincial da PRM sob quais alegações não sabemos.

Cadre Hibraimo Cassimo

A África Great Wall Min­ing Development Company não conseguiu ter uma conversa boa com os nativos, onde é que vão nos reassentar, porque nós vivemos de pesca e agricultura. Entretanto quando eles chegam não dizem nada, estão a ocultar tudo. Quando sentam com a população a ideia é saiam daqui e vamos dar 20 a 30 mil meticais, oque não é nada.

Se eles querem areia que nos deem as condições mínimas, se querem reassentar-nos que seja numa zona onde exista água, rio e áreas para cultivo, Escola sabemos que irão colocar mas quando e aonde? A Frelimo quando lutou para independência era para libertar o homem e a terra, e é está a terra que nos estão a arrancar para entregar aos chineses, então não estamos livres! Está empresa passou em Tete, Cabo Delgado não mataram nenhuma pessoa, o que é que passa connosco? Será que não somos moçambicanos?

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O secretário está preso e estão atrás dos líderes da comunidade a recolherem todos.

Se você quer casar uma mulher é preciso bater o pai? Ou negoceia de boas maneiras? É isto que está a acontecer em Olinda, então qual é a liberdade que temos?

O Jornal Txopela contactou o Comando Provincial da PRM na Zambézia que confirma que até está quarta-feira o batalhão da força paramilitar composta por homens da UIR encontra-se no local. Republicamos a mensagem enviada a nossa redacção [com as devidas correções ortográficas] “a força ainda está no local, já foi restabelecida a ordem, a população convive normalmente com a corporação e a sua retirada está condicionada a implementação dos acordos entre as partes envolvidas neste processo ”

PRM confirma morte de uma pessoa e ferimento de cinco em Inhassunge

O Comando Provincial da Policia da República de Moçambique PRM ao nível da Zambézia, confirmou a morte de uma pessoa e ferimento de outras cinco, na sequência dos confrontos havidos semana passada, entre as forças da PRM, especificamente à Unidade de Intervenção Rápida—UIR e os moradores da localidade de Olinda, no distrito de Inhassunge.

Segundo Sidney Lonzo, substituto do Porta-voz do Comando Provincial da PRM na Zambézia, que avançou o facto no habitual briefing semanal daquela corporação, os agentes da lei e ordem agiram em legítima defesa dado que, segundo as suas palavras, os moradores pretendiam agredi-los empunhando instrumentos contundentes.

A fonte adiantou ainda que o incidente teve lugar como ultima alternativa, dado que, segundo defende, os ânimos dos populares estavam bastante elevados: “O incidente aconteceu acidentalmente porque os agentes da Unidade de Intervenção Rápida estavam a tentar conter os ânimos dos populares que avançavam contra eles empunhando instrumentos contundentes diversificados. Esgotadas todas as alternativas para o diálogo pacífico, tiveram que disparar alguns tiros que culminaram com a morte de uma pessoa e o ferimento de cinco outras pessoas” – palavras de Sidney Lonzo.

No entanto, fontes seguras do distrito de Inhassunge, garantiram ao Semanário Txopela que o número de vítimas foi muito maior do que o apresentado pelo Porta-voz substituto da PRM. Contudo, uma equipa de profissionais desta publicação encontra-se desde a manhã de hoje, no distrito de Inhassunge, para apurar a veracidade dos factos.