JOCAS ACHAR O MDM é que precisava de Manuel de Araújo e não o contrario

O MDM é que precisava de Manuel de Araújo e não o contrario

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A renúncia de Manuel de Araújo da posição de cabeça de lista do Movimento Democrático de Moçambique — MDM e posterior filiação à Resistência Nacional de Moçambique — RENAMO semana última, está a criar uma onda de reacções ao nível nacional e internacional. O xadrez político na capital provincial da Zambézia pode ser descrito como delicado quando à Frelimo, partido que esteve na oposição nos últimos 7 anos na autarquia regressa com à lição estudada e o MDM perde um dos seus políticos mais proeminentes e candidato à presidente do Conselho Autárquico à luz da nova lei de descentralização. Sobre este e outros temas a conversa está semana é com Jocas Achar, Jornalista e Docente universitário de Ciências Politicas e Relações Internacionais. Acompanhe a entrevista no clássico pergunta e resposta nas linhas que se seguem:

Como avalia as mudanças que estão a ocorrer dentro dos partidos políticos, especificamente à saída por exemplo de Manuel de Araújo e de outras figuras das fileiras do MDM para se aliar à RENAMO. O que é que isso representa para democracia?

O que eu devo dizer é que à democracia não começou hoje, em outras sociedades que foram os primeiros a serem democráticos dizem que não há problema nenhum, é um processo normal. A nossa democracia é jovem e ainda estamos a construir com um sacrifico e até com arranjos administrativos para que tenhamos uma situação ideal. Eu não vejo mal nenhum que o presidente Manuel de Araújo saia do MDM e filie-se a outra organização política, neste caso a RENAMO, é um processo normal. Nestas sociedades que eu estava a referir-me, em que foram as pioneiras do tal processo democrático, nós temos um exemplo, falo da Hillary Clinton que pertence à uma família de conservadores, mas depois acabou se filiando aos republicanos, e isso chocou os valores da própria família. Contudo hoje, é uma personalidade politica com reconhecimento internacional, agora, isso pode causar alguma estranheza por parte de alguns cidadãos moçambicanos, verem isso como uma prostituição politica. Normalmente o que acontece é que, um individuo ou um cidadão pode filiar-se a uma organização politica a pensar que de facto à ideologia deste partido faz parte das suas aspirações, mas uma vez lá dentro, pode compreender que afinal de contas não é aquilo que pensava e quando é assim tem a liberdade de mudar quando quiser. O que está a acontecer no nosso contexto moçambicano é que há muita falta de informação, os cidadãos não tem muita informação de como os processos decorrem.

 Quais as valências desse casamento entre Manuel de Araújo e a Renamo?

Se nós formos a ver os membros simpatizantes da Renamo, sempre foram pessoas muito adultas com mais de 40 ou 60 anos de idade. As avalanches da RENAMO foram sempre deste tipo de pessoas. Agora, naquela manifestação de indicação de Manuel de Araújo pela Renamo, o sentimento com que as pessoas ficaram é que houve um arrastar da juventude para apoiar ao Manuel de Araújo.

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Se seguiram ao Manuel de Araújo certamente que podem também seguir à Renamo quando chegar a vez do processo eleitoral. Eu penso que este é um grande capital que o Manuel de Araújo tem, de ter capacidades de mobilizar a força jovem e este País, é um pais jovem então eu acho que é preciso capitalizar muito este aspecto de que a RENAMO hoje começa a ser uma organização que também interessa aos jovens. E o Manuel de Araújo está a fazer isso…

O discurso dos jovens de 2000…

Se nós formos a ver mesmo nas eleições passadas o grande número de apoiantes simpatizantes de Manuel de Araújo foram mais os jovens. Ai também é preciso fazer uma diferença, à figura conta muito do que o próprio partido. Nos vimos este caso na relação de Manuel de Araújo e o MDM, é mais o MDM é que precisava do Manuel de Araújo que o contrário. Então aquele seguimento de jovens que tinham o seguido, no MDM provavelmente poderão voltar ou em outras palavras segui-lo nesta viragem para Renamo. Na sua marcha de apresentação a dias quase 40% eram jovens, o que não é normal no partido Renamo.

Não estranha o facto de já passada uma semana, depois do anúncio da Renamo confirmando Manuel de Araújo para cabeça de lista, a Frelimo e o MDM não tenham apresentados os seus cabeças de listas?

Aqui precisamos separar duas coisas que são duas organizações políticas diferentes. Temos o MDM que contava com os préstimos de Manuel de Araújo como cabeça de lista, e essa decisão [deserção] embora se diga que não surpreendeu o MDM, significa que este partido agora tem que reencontrar-se politicamente e procurar uma figura que reúna consenso ao nível dos membros e simpatizantes do MDM para poder trazê-la. E penso que até certo modo está justificação de que [a renuncia de Manuel de Araújo] não surpreendeu pode não se constituir a verdade, porque se não se surpreendeu quer dizer que o MDM já tinha um candidato preparado para isso. Mais se há essa dificuldade ou demora significa que devem ainda estar a procura do candidato.

Até então não foi apresentado o cabeça de lista, essa demora tem a ver com a consulta das bases, consulta dos membros, consultas de pessoas influentes para ver qual vai ser a figura que o MDM como uma organização política vai apresentar como cabeça de lista e podem encontrar dificuldades. Será que encontrarão uma pessoa com capital para arrastar jovens para a organização? Há muito por estudar por parte da própria organização, porque o candidato pode ser consensual no partido conquanto deve ter inserção ao nível da cidade.

A Frelimo por conta da sua experiencia política, em função dos últimos eventos deve estar a preparar uma resposta a altura, de encontrar uma pessoa mais consensual ou ainda uma que esteve a ser preparada nestes últimos anos para este processo. Um dos problemas que os partidos tem é de apresentar os seus candidatos nas vésperas das eleições, o que não tem de ser o normal, as cabeças de listas ou candidatos deviam ser apresentados o mais cedo possível para que os eleitores o conhecessem e ir construído confiança com os diferentes segmentos, para analisar-se quais são as ideias que ele tem para cidade, no caso de ser eleito quais serão as suas prioridades. Os munícipes devem ter a oportunidade de apresentar ideias aos candidatos para inserção nos seus manifestos eleitorais e programas de governação.

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No documento de renúncia de Manuel de Araújo da posição de cabeça de lista do MDM para a autarquia de Quelimane, refere que abandona por falta de democracia interna, um assunto que já há bastantes anos vem levantando. Conquanto há vozes que dizem que este argumento não é solido, defendem que Manuel de Araújo não tendo estado na Renamo nos últimos anos e regressar para ocupar a primeira posição da lista para o município de Quelimane revela o mesmo facto, como analisa estas duas posições?

Aquilo que conhecemos de vários partidos é que há candidatos que costumam a ser impostos por um grupo de pessoas que acham ou tem poder dentro da organização politica. Por vezes esse candidato não é do consenso das bases e este facto leva a derrota, o comentário sobre este assunto é em função do que Manuel de Araújo foi falando nos últimos anos na imprensa, demostrava que havia esse défice democrático dentro da organização que ele militava, nesta época não vimos ninguém a reagir, para desmentir ou algo próximo. Estranha o facto de agora que retirou-se do partido vejamos um esforço tremendo para desmentir está informação.

O que esperar dos próximos pleitos eleitorais à realizarem daqui a alguns meses?

Se este novo figurino [nova lei] não for de domínio dos eleitores, os mecanismos de votação, entre outros pode criar uma certa confusão, é preciso que a mídia fundamentalmente promova debates com os cidadãos, políticos, organizações da sociedade civil, confissões religiosas para explicar que o figurino vai mudar. Grosso modo dos cidadãos ainda não sabem como vai funcionar este processo de eleição dos presidentes dos Conselhos Autárquicos. Sem duvida que será um processo eleitoral bastante renhido, a Frelimo tem vindo a dizer que precisa recuperar Quelimane e de facto tem estado a trabalhar para o alcance desse desiderato, o MDM com este imbróglio abre espaço para uma volatiblidade politica, os seus membros não são cativos e muitos vem da Renamo e aqui poderão ter eleitores repartidos, mas isso depende sobremaneira de como cada um vai vender a sua agenda politica ou de governação aos eleitores durante a campanha.

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