LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

Padre Casimiro da Cruz Pedro

“Daviz Simango não é tribalista” — Padre Casimiro da Cruz Pedro

em DESTAQUES/ENTREVISTA por

O Movimento Democrático de Moçambique (MDM) é a terceira maior força política no país. Vive nos últimos meses momentos conturbados devido ao ambiente hostil instalado no seio dos seus membros seniores.Como resultado destes constantes choques de ideologia, grosso número de membros influentes rescindiram o seu comprometimento com os objectivos do partido, tendo muitos deles, optado filiar-se à Resistência Nacional de Moçambique — RENAMO, a segunda maior força política em Moçambique.

O Semanário Txopela conversou com o Presidente da Mesa do Conselho Nacional do Partido, o mais alto órgão daquela formação politica.

Acompanhe nas próximas linhas, a entrevista tal como ela foi:

Comecemos pelo nome e a função que desempenha no partido.

Sou Casimiro da Cruz Pedro, digo Padre porque sou Padre de profissão, dentro do partido desempenho à função de Presidente da mesa do Conselho Nacional, um órgão que tem por função fiscalizar o exercício do partido na interação com à comunidade, é um órgão que se reúne duas vezes ao ano, na medida do possível para avaliar o desempenho do executivo do partido.

O Conselho Nacional do MDM esteve reunido há bocado. Como avalia o desempenho dos executivos municipais nas quatro autarquias onde o partido esta a governar?

Nós temos que ser muito concretos. O MDM aparece como um partido de alternância política no país e aparece como uma novidade. Porque que eu digo isso? É que na nossa génese nacional, os partidos de renome apareceram e foram implementados pela guerra. A FRELIMO a sua génese é da guerra, a RENAMO nasce do mesmo perfil – A guerra, fazer guerra para alcançar o poder. O MDM contrariamente, nasce da vontade de fazer com que o povo moçambicano perceba que fazer política é uma das armas mais potentes para que se estabeleça a ponte necessária, aquilo que se chama de conhecimento empírico ao conhecimento pratico ou científico. Enquanto os políticos obrigam as pessoas a fazer aquilo que não querem, obrigam as pessoas a ciarem liberações, quer dizer, obriga as pessoas a fugirem, mas a natureza própria da política é a capacidade de organizar as pessoas e geri-las. Então, o MDM nasce com este pressuposto, porque haviam alienações, as pessoas eram alienadas a se filiarem aos partidos armados por medo. “Se eu não estiver neste partido, vejo-me a nora ou ponho em perigo a minha vida”. Mas isso não acontece no MDM, por isso é que vocês assistem entradas e saídas livres de membros e vai ser assim para sempre. Isso acontece em todos os partidos mais desenvolvidos democraticamente.

E quando nasce o MDM, apresenta a sua política democrática, dai o nome Movimento Democrático de Moçambique (porque à democracia é o poder do povo), então dá-se um espaço para aquilo que se chama de liberdade de expressão, liberdade de consciência, liberdade de escolha e esse partido vai continuar assim.

Quando realizamos o Congresso em Dezembro do ano passado foi posto a prova o próprio presidente do partido, o fundador do partido não é? O Daviz Simango. Portanto tinha que se candidatar para a direcção do partido, e não havendo pessoas que se sentissem em condições de dirigir o partido, ele acabou sendo o candidato único, consequentemente o voto foi consensual. Portanto, se havia por ali espaço para alguém se manifestar e não o fez, então não diga que não foi dado espaço. Portanto, quero com isso dizer que Presidente Simango é presidente por vontade de todos os membros do partido, porque ele foi ao sufrágio interno e venceu.

Indo concretamente a minha questão. Uma vez que estamos no final do mandato nas autarquias, qual é a avaliação que faz sobre a governação nas quatro autarquias sob gestão do partido MDM?

Por acaso é fruto dessa filosofia de governação que decorre da natureza do próprio partido que eu avalio positivamente. Porque? Porque se formos a ver os feitos nessas autarquias foram as tais que trouxeram novidades vistas em todas 53 autarquias que desde a existência das autarquias, as governadas pelo MDM foram as únicas que trouxeram transformações profundas. As receitas que decorem das contribuições dos munícipes fizeram-se sentir nas realizações, estou a falar de construção de estradas transitáveis, a colocação de sinais luminosos para controlar o trafego, a restruturação da cidade e o embelezamento criando espaços de lazer jamais vistos ao nível nacional. Nós estamos a devolver aquilo que é o aspecto originário de uma cidade, e isso esta bem visível na Beira, em Quelimane, em Nampula, até em Gurué. Quem vai à Gurué sente que afinal das contas havia ali uma cidade perdida antes da governação do MDM e é uma cidade que se chama agora de Suíça de Moçambique porque com as chazeiras que contornam a cidade dão outra beleza.

Eu acabo de voltar a quatro dias de Gurué exatamente para aferir o ponto de situação e encontrei um trabalho extraordinário. Conversei com alguns munícipes, alguns da FRELIMO e de outros partidos que me confirmaram que a cidade Gurué de facto voltou a ser cidade, como era na era do colono. Então isso faz-nos sentir que temos uma responsabilidade política de restituir à natureza e o potencial que as cidades moçambicanas foram e esse desafio, encontra claro, nos outros partidos, alguma inveja. É natural e normal.

Alguém pode imaginar que não, é iniciativa do autarca ou do Edil que está a frente da governação da determinada cidade. Não! Há uma filosofia interna do partido e há uma interajuda entre os municípios governados pelo partido. Por isso vocês vem que, por exemplo o município de Quelimane tem acordos de gemelagem com a Beira, com Nampula e com Gurué. Portanto se uma cidade se vê na incapacidade de resolver um determinado assunto, apela o apoio da outra cidade e acaba se resolvendo a situação.

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Quanto as eleições autárquicas que irão decorrer este ano a 10 de Outubro próximo. Até que ponto o partido Movimento Democrático de Moçambique está preparado para fazer face há estas eleições? Vai concorrer nas 53 autarquias? Se não, porque?

O MDM é um partido que veio [para se afirmar na sociedade moçambicana e não pode se abdicar daquilo que é o sonho deste povo. Porque todo povo ouve dizer do que está a acontecer na Beira, em Nampula, em Quelimane e em Gurué e gostaria de ver replicado aquilo que está a acontecer nestas cidades. Então, este é um mandato, ou seja, uma obrigação que nós vamos ter de levar à todo o país. Temos condições, temos personalidades, temos individualidades com a capacidade de fazer a réplica da filosofia de governação do partido em todo Moçambique.

Cientistas ou analistas políticos referrem que o MDM está a um passo do fim. Alinha nesse fio de pensamento?

Com que principio e que chegam à essa conclusão? Donde vem esse pensamento? Porque é que eles chegam a pensar nisso?

Fala-se da saída de algumas figuras proeminentes dentro do Movimento, estamos a falar concretamente de figuras como Venâncio Mondlane, António Frangoulis, Mahamudo Amurane, Job Mutombene entre outros e por causa dessa ordem de acontecimentos alguns analistas políticos acabam predizendo que no futuro o MDM poderá encontrar o seu fim…

Nunca! Isso é uma falacia! Sabe porque? Existe o princípio de selecçao natural que já conheces. Disse muito bem no princípio desta entrevista que este partido é democrático. As pessoas entram livremente e podem sair também livremente. Se as pessoas entraram, é porque encontraram o MDM a existir, se saem, não quer dizer que o partido vai morrer.

Sabes! Eu só posso conviver com aquela pessoa que se adequa a minha natureza, ao meu ser, ao meu estilo de ser e estar. Quando a pessoa não encontra esse espaço, se calhar já não é democrata, pode ser que seja de outro perfil. Então eu não acredito. A pergunta que lhe faço é a seguinte: Antes dessas pessoas não existia o MDM? Em todo o mundo, as pessoas entram para uma formação política com objectivos individuais para ver realizados esses objectivos. Não conseguem transcender os seus apetites carnais para se dedicarem aos objectivos, aos valores e a missão pelos quais esse partido existe. Portanto quando não se compagina com esses princípios, com os objectivos, com a visão, com os valores e com a missão desse partido, então vê-se a nora. Julgam que não será possível alcançar os seus objectivos pessoais, então procuram onde será possível realizar os seus objectivos individuais facilmente. Portanto, haverá sempre purificação das fileiras dos militantes deste partido. Ou as pessoas são democratas ou não o são. Não se pode colocar o saber concentrado numa única pessoa. O partido tem os seus estatutos, tem a sua filosofia de fazer política. Então, nem que eu seja sábio, que traga que bagagem, se eu não faço simbiose do meu saber com a natureza desse partido, nunca vou ficar feliz.

Padre. Alguns membros “desertores”, digamos assim, do partido, acusam o Presidente de tribalismo e de ser avesso a outras opiniões. Será esse o clima que se vive internamente no partido?

Não é verdade. Repare só. Se isso fosse verdade. Manuel de Araújo aparece publicamente, diz o que tem na sua cabeça, e faz muitas vezes o que lhe convém, inclusive vocês viram que até faz criticas, mas não deixa e nunca deixou de cumprir a sua missão. Apesar de ele muitas vezes aparecer a fazer criticas em fóruns impróprios para fazer criticas internas, mas em nenhum momento vocês viram o partido aparecer a afronta-lo, isso porque ele tem a sua maneira de fazer valer as suas iniciativas. Comparando com os outros partidos, o MDM é um dos partidos que os seus edis tem à liberdade de dar a sua iniciativa. Portanto não é verdade que o Daviz Simango é tribalista. Repare que o Manuel de Araújo não é da família do Simango, o Amurane não foi da família do Simango, OK? Orlando Janeiro não é familiar do Simango. Sabemos muito bem que Manuel de Araújo é machuabo, o Orlando Janeiro e Lomwe e o Amurane era Macua. Então essa é uma falacia com o objectivo de denigrir a imagem do partido, porque há um ciúme. Temos que ser sinceiros, há um ciúme porque as pessoas se perguntam como é que esse partido tem a capacidade de fazer a gestão pública sendo um partido ainda muito novo. É um partido que nasceu há dez anos mas esta a fazer valer o exercício da actividade política a nível nacional. Eu não sou familiar do Daviz Simango, entretanto sou Presidente da mesa do Conselho Nacional.

Senhor Presidente. Como é que avalia os últimos acontecimentos? O possível adiamento da realização das eleições autárquicas em Moçambique. O que é que acha que deve estar por detrás deste comportamento do partido FRELIMO na Assembleia da República?

Em princípio é que em Moçambique não se faz Política. Faz-se “A política” ou falta de urbanidade democrática. Temos que classificar assim. Quer dizer, ainda prevalece o totalitarismo. E oque é o totalitarismo? Se reparar bem é que o totalitarismo nasce da negação da verdade no sentido objectivo. Portanto, há uma tentativa de ofuscar a verdade democrática, isto é, a natureza em si da democracia. Quando as pessoas não estão preparadas, procuram adiar o cumprimento dos prazos marcados legalmente pela constituição.

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Se reparar verá que o MDM foi o primeiro partido que já identificou os seus cabeças de lista. Mas esse critério foi proposto por quem? E porquê que eles não avançaram, tendo sido algo que foi acordado pelos dois partidos? É verdade que o MDM foi o primeiro a avançar com essa ideia de descentralização completa, de fazer com que o poder desça até as populações ou dar a oportunidade para que as pessoas sintam que são elas que decidiram que as coisas sejam assim. Mas os nossos pares ainda estão agarrados e tem receio de conceder a liberdade para que o companheiro possa se expressar livremente. Querem ainda continuar a impor os seus projectos. Então isso é violação.

A se concretizar o adiamento, que implicações isso poderá ter no processo democrático nacional?

Vai ter implicações muito drásticas. Primeiro vai cair aquela confiança tanto nacional como internacionalmente com relação ao governo do dia. Quer o poder a força e sem legitimidade. Essa vai ser a leitura que será feita.

Dois, coloca à população moçambicana refém dum regime que não é da sua vontade. Porque à vontade é expressa através do voto, através de eleições periódicas. E se não acontece o que quer dizer? É manifestação clara do totalitarismo e não da democracia.

Para os próximos pleitos eleitorais. Existem autarquias onde as prováveis cabeças de listas desertaram-se do partido. O MDM tem nomes para suprir estes espaços ou não vai concorrer em todas autarquias?

Nos temos quadros dentro e fora do país que estão em condições de fazer a réplica da política de governação do nosso partido em todo o pais.

Alguma mensagem à avançar para o povo moçambicano? Tendo em conta o período em que nos encontramos.

Óptimo! O povo moçambicano deve, com sã consciência, fazer a leitura dos objectivos pelos quais cada partido se faz vincar, se faz apresentar publicamente como alternativa política. O povo moçambicano deve fazer leitura do antes, o agora e o que poderá ser amanhã, em função daquilo que tem como experiência. A nossa governação não está numa ilha. As pessoas acompanham as nossas realizações através dos mídia e através das visitas que fazem as cidades que nós estamos a governar. Então, eu queria apelar ao povo moçambicano para que tenha coragem de apostar no MDM. Não estou a fazer uma campanha. É que é o único partido que primeiro ouve as populações para depois traçar as suas políticas de governação, ou seja, nos fazemos aquilo que se chama governação participativa. A nossa política de governação não é apenas do partido, mas também auscultamos quais são as aspirações dos populares e conjugamos com os nossos estatutos e ai implementamos. É dai, de facto que surge a realização no modelo de fazer Quelimane, de fazer Beira, de fazer Nampula e de fazer Gurué.

Se reparar a população nunca vai ser refém ao modelo de ser do MDM, porque as circunstâncias mudam e nós estamos prontos para acolher e adequarmo-nos às circunstâncias do momento. Não temos medo, por isso eu dizia. Para aqueles que não conseguem se adequar ao modelo de governação do MDM não encontram espaço neste partido e são as pessoas que no final do dia se afastam e nos não estamos preocupados com essas pessoas. Aliás, se outros partidos são maduros, creio que poderão questionar de facto, porque e que estas pessoas se afastaram? Eles não foram expulsas, livremente se afastaram.

Se em pouco tempo foram se meter em outros partidos, então deviam questionar o que é que fizeram de concreto para merecer a confiança do nosso partido? Vem mesmo para fazer valer a natureza, os valores, os princípios, a missão e a visão desse determinado partido? Ou tem objectivos pessoais que diferem da natureza dos partidos a que eles se integram? Então, eu apelo à população para questionar se essas personalidades, essas figuras são fiáveis ou não. É como um homem que hoje compromete-se com uma mulher, passados dois anos, diz que não, essa mulher não serve e busca uma outra mulher, passado um ano diz que não também essa não serve e vai buscar outra. Esse homem não e sério.

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