LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

Mocímboa da Praia / Cabo Delgado

Possíveis lições a tirar sobre os “incedêncios” de Cabo Delgado

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Mocímboa da Praia / Cabo Delgado
Mocímboa da Praia / Cabo Delgado

O grupo que aterroriza a província de Cabo Delgado pode ter o mesmo espírito e a mesma motivação que havia no seio da FRELIMO quando iniciou a Luta de Libertação Nacional: o ideal libertário. Extraído de uma conversa com amigo Saíde.  

Desconheço as reais motivações que estarão por detrás dos atacantes terroristas no norte do país, mais concretamente na província de Cabo Delgado. Tenho, porém, três hipóteses que me parecem verossímeis. A primeira: estamos perante um grupo radical que, aproveitando-se do ruido das “dívidas oculta”, das peripécias político-militares da Renamo e de alguma sonolência das forças de segurança e defesa, se instalou no país através do islão. Sob o pretexto do abc do islão, muitos jovens marginalizados ou excluídos do quinhão foram recrutados como alunos nos respectivos colégios, tornando-se, provavelmente, terroristas que procuram impor uma nova filosofia do islão (xaria), alterando a ordem constitucional. Para esses grupos de cariz essencialmente religioso, uma das formas de chegar ao paraíso, de forma considerada imaculada e sem ser interpelados, é o sacrifício pela própria vida, daí que seja muito difícil combatê-los. As ideologias têm raízes profundas e, uma vez enraizadas e armadas, tornam-se muito difíceis de ser arrancadas das mentes. Mas, à medida que o tempo passa e a verdade é restabelecida, elas sucumbem como espuma.

A segunda: os anciãos normalmente não fazem a guerra. Os jovens sim. Significando que as políticas públicas de combate à pobreza e do desemprego não estão a sortir efeitos no seio dessa camada. Os meus textos sobre a visita que efectuei à Palma e à Mocimboa da Praia, em 2016, atestaram uma realidade cruel: comunidades sujeitas a uma pobreza insolente, sem nenhuma perspectiva de vida. Nessa altura, as comunidades diziam que eram apenas guardiões dos recursos e acusavam às empresas transnacionais de expropriação de terra, desterro, desfiliação e de os empobrecer. Pareciam comunidades extraterrestres, desligadas do país, que vegetavam. Sucede que os “excluídos” de outras regiões limítrofes uniram-se aos “excluídos” de Cabo Delgado e, movidos pelo ideal que proclamam, formaram um “exército de terroristas.” O aparecimento desse grupo, numa altura em que se anunciava a áurea da paz e da reconciliação nacional, poderá assombrar a governação do presidente Filipe Nyusi. O pior poderá acontecer se o grupo de terror “penetrar” nas províncias de Nampula e Zambézia, onde o desemprego grassa e a ociosidade impera. Pior será, ainda, se os terroristas começarem a explodir bombas. Seremos uma presa fácil!

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Terceira: não é à toa que os conflitos fervilham na província umbilical do presidente da República. Isto revela, por um lado, que existe, internamente, no seio de vários grupos de interesses moçambicanos, um ou mais “porteiros”, que abriu a porta e permitiu à entrada e o florescimento de inimigos. Esteve sempre evidente o inconformismo e a aversão às políticas do presidente Nyusi no seio de alguns camaradas. Emergir um conflito na província do presidente Nyusi é também uma tentativa de humilhação e um sinal evidente de que há forças internas opostas e maquiavélicas. A ideia é clara: isolar, fragilizar e afastar o presidente Nyusi do poder, bem como dividir os moçambicanos, atiçando ódio, impondo a secessão: um modelo antidemocrático de instauração do regionalismo e impedir o desenvolvimento do país, inviabilizando os projectos de gás natural da bacia do Rovuma.

Muitas vezes estivemos de volta. E sempre que tentámos trazer Moçambique de volta, um ou mais empecilho, o impediu. Aqui chegados, que lições a tirar sobre os “incêndios” de Cabo Delgado? Esta guerra é produto do misto de interesses (internos e externos), desfavoráveis a Moçambique; tem relação com a descoberta e exploração de recursos naturais e as consequentes metamorfoses geopolíticas e geoestratégicas; parece haver esforços tendentes a confirmar-se, embora errada, a tese de que os “recursos são uma maldição”, quando, na essência, os interesses e objectivos ocultos comandam os nossos destinos. A delicadeza da questão exige a frieza nas decisões políticas a tomar e nas políticas a seguir para que o simples abcesso não escambe em cancro. Há sinais, quase evidentes, de que estamos perante mais uma guerra que tende a ser de longa duração, se não houver “arte e engenho” dos decisores, em concertação com a região. Zicomo e um braço nhúngue à Zimile e à Nércia.

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Por Viriato Caetano Dias (viriatocaetanodias@gmail.com)

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