Japone Arijuane

A viagem contínua

em CRÓNICA/DESTAQUES/OPINIÃO por

Viajar é nascer e morrer a todo o instante. Victor Hugo

Eis que o motorista abandona o volante do machimbombo em pleno movimento, o autocarro vinha cambaleando como antílope atingido numa das patas, os pneus frontais já estavam defronte a um cajueiro, o embate só não aconteceu por um milagre.

Estávamos na Estrada Nacional número um quando o condutor decidiu abandonar o lugar em que o é reservado e foi, na parte traseira do autocarro, obrigar um passageiro, que a muito vinha reclamando da forma como ele dirigia, a descer. Na verdade, o que motorista queria era empurrar o passageiro do autocarro, mas graças ao porte físico e habilidades deste o driver não logrou intentos.

Bom, este episódio aconteceu nos princípios dos anos oitenta, numa viagem que fiz para uma das cidades moçambicanas. Presenciei por isso testemunho. Eram tempos de escassezes, tempos muito défices, o transporte ainda que publico é privilégios de alguns, o que, infelizmente, contínua sendo ainda, mas não como era naqueles tempos.

Havíamos ficado muito tempo apodrecendo na paragem, todos exibíamos aqueles rostos de stresse e desespero de se atrasar ou de nunca chegar aonde quer que se vá. Passavam alguns privilegiados em carros privados que sob olhar impávido assistiam o nosso infortúnio. Séculos após séculos de espera um machimbombo fez-se chiar no saibro, com marcas do tempo e descuidado evidenciando o seu estado, os pneus estão tão carecas que calvície de um idoso. Buzinou, a poera e a fumaça iam embaciando a atmosfera, enquanto isso nós empreendíamos uma guerra titânica para ter acesso ao interior da viatura, pese embora soubéssemos que caberíamos todos.

Já dentro do autocarro, testemunhamos que, apesar do autocarro estar no desgaste total, o motorista igualmente conduzia totalmente mal, era como se estivéssemos num pula-pula, de cova em cova o machimbombo ia, o motorista numa demostração clara de arrogância e prepotência, mostrava-se estar nem aí para os nossos pratos de aflição e nossa clemência à prudência. «Este gajo está a nos faltar com respeito» pensei e desrespeitava-nos a nós e aos sinais de trânsito mas, mesmo assim, ninguém ousava em reprendê-lo de viva voz.

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Continuávamos pacíficos, tão pacíficos como águas do rio numa noite sem ventos, vendo nossas vidas mergulhadas num eminente perigo, até que da parte central do machimbombo um jovem, que afinal se chamava de Afonso, como fiquei a saber isso anos mais tarde, ergueu-se e de voz aguçada atingiu o pavilhão auditivo do condutor.

“Edjo, nós não somos sacos de batatas, respeite-nos, ok!”

O jovem continuou e falava com uma firmeza, de tal forma que o condutor ameaçou de parar o carro e descarregá-lo, algumas pessoas que se diziam atrasadas opinavam a favor do motorista, dizendo para que o jovem parasse de vociferar que aquilo só atrapalharia o motorista.

“Jovem, queremos chegar a horas, por favor assim também não, vais atrapalhar o madala.”

“Prefiro chegar tarde que morrer sedo.”

O jovem não se fez de rogado, continuou cada vez mais firme, dizendo que mesmo que o motorista parasse o machimbombo ele não desceria nem a força. A multidão ia resmungando, alguns até murmurando para que o motorista não os tirasse do carro, mas mesmo assim a viagem continuava cheia de turbulências e o jovem continuava lançando arpas e farpas.

 “A mim você não vai espezinhar. Pode até parar o carro, mas eu não desço, estou dentro dos meus direitos.”

 “Qual direito tu tens?, eu sou o motorista, eu sou quem se deve respeitar.”

“Você é apenas o motorista não o dono do machimbombo, este autocarro é de todos nós, este carro foi comprado com os nossos impostos.”

“Se o senhor continuar com essa boca suja eu parro carro e parro a sua viagem”

“Quero ver quem terá força para me parrar aqui.”

A discussão entre o motorista e passageiro continuava cada vez mais impaciente, de tal forma que o motorista, sem ter de parrar o veículo, largou o volante e fez-se na parte traseira do autocarro para enfrentar o passageiro, mas levou porrada porque o jovem era mesmo muito forte, os outros passageiros apenas choravam, suplicando para que o motorista voltasse ao volante.

Por causa do choro de quase todos passageiros, o motorista voltou ao volante, foi se refazendo das lágrimas que espreitavam-lhe o rosto mas, mesmo assim, o jovem não parou de vociferar e dizia que se ele, o motorista, não que quisesse dirigir o machimbombo, ele poderia fazê-lo e muito bom.

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“Olha que eu também sei dirigir e muito bem.”

O motorista tentou ignorá-lo, mas quando se deu conta viu que todos os passageiros agora estavam a favor do jovem e o motorista não mudou de atitudes nem a forma como conduzia e o jovem, agora com todos outros do seu lado, gritava em cada solavanco até que o motorista ponderou certas práticas.

Quando tudo parecia controlado, todos calmos, outros até numa soneca própria de que viaja a vontade, alguns se refestelando da boa condução que o motorista empreendia, graças as reclamações e a ousadia do jovem eis que intransigente grita:

“Paragem, já cheguei no meu destino”

«Como assim chegou no seu destino???» todos fizeram essa pergunta com aquele olhar de terror, com medo de como é que a partir dali, sem o jovem no machimbombo, o motorista haveria de se comportar, mas o jovem já havia chegado ao seu destino, não havia mais nada a fazer senão conformar-se e nesse mesmo instante a tristeza invadiu o autocarro.

(Cont.)

Japone Arijuane

Poeta & Jornalista

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