Um conceito de cidade, ainda ignorado

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Se afirmásse que os arquitectos que trabalham nas vereações de urbanização das cidades moçambicanas são uma fraude, seguramente que nervar-se-iam e procurar-me-iam para atirar contra mim, cobras e lagartos. Se afirmásse que em mais de 40 anos de independência não conseguimos construir cidades, seguramente que colocar-se-ia em questão a minha intelectualidade e por via disso, reduzir-se-iam os meus skils no jornalismo, na história, filosofia e sociologia. Por isso que sem acusar um arquitecto, urbanista ou topógrafo, vou contar como foi o meu fim da tarde, do dia 25 de Abril de 2018.

Tive a sorte de estar no dia 25 de Abril, claro, da semana passada, dia em que em Portugal celebrava-se a revolução dos cravos e em Moçambique, recordava-se o evento que marcou uma virada na luta pela independencia, na capital de uma província que presenciou os derradeiros momentos da luta de libertação nacional, um destes momentos, seguramente é a operação “No Górdio”.

Estava lá, nas barbas do Zambeze como “um louco ao fim da tarde” (M. Panguana) e a viver a magia de caminhar pelas ruas e roletes de uma cidade. Fiz coisas que um jovem intelectual de forte influência iluminista, gosta. Explorar no sentido rossiniano do conceito, as maravilhas da natureza.

Jessemusse Cacinda

Caminhava pela avenida da Liberdade e de repente, vi um edifício escrito: “cinema 333”, cheio de pessoas e com uma imagem projectada sobre a tela. Bem emocionado, entrei para o interior do mesmo, na esperança de ver um filme, se calhar que falasse do 25 de Abril ou então do debate de ideias, havido em Portugal e nas colónias, a época dos acontecimentos. Já no interior do “cinema 333” descubro que afinal de contas estou numa Igreja, o que me colocou desolado.

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Na hora recordei-me de vários aspectos que fazem realmente uma cidade, um deles, o facto de bairros de expansão que orgulhamo-nos de construir nas nossas cidades, não terem valas de drenagem, vias de acesso, casas de cultura e espaços par a prática desportiva. Oh que cidades sem jardins? Oh que escolas sem livros? Oh que cidades sem cidadãos? Enfim, questionava-me sem parar.

Continuei a marcha pela mesma avenida Eduardo Mondlane e de repente, escuto um barulho vindo de um pavilhão polivalente pertencente ao conselho municipal. Um ginásio, para ser mais concreto. Decido uma vez mais entrar para o interior do edifício. E lá encontro um jovem treinador de basketbol orientando duas equipas, uma feminina e outra masculina. Nas bancadas estava um número pequeno de jovens, a assistir os treinos e a debater sobre o que devia ser feito pelo basket da cidade. E de repente, percebo que entre o desolamento e a vontade, existe uma possibilidade. Uma possibilidade de pensarmos em como construímos nossas cidades e acima de tudo, o que esperamos de alguém que se considere citadino (conceito actual) e cidadão (conceito clássico). Mas a verdade é que não se pode fazer cidades, sem espíritos urbanos. E os espíritos pertencem aos homens.

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