IMG 2941 - Um conceito de cidade, ainda ignorado
Estudio 333

Um conceito de cidade, ainda ignorado

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Se afirmásse que os arquitectos que trabalham nas vereações de urbanização das cidades moçambicanas são uma fraude, seguramente que nervar-se-iam e procurar-me-iam para atirar contra mim, cobras e lagartos. Se afirmásse que em mais de 40 anos de independência não conseguimos construir cidades, seguramente que colocar-se-ia em questão a minha intelectualidade e por via disso, reduzir-se-iam os meus skils no jornalismo, na história, filosofia e sociologia. Por isso que sem acusar um arquitecto, urbanista ou topógrafo, vou contar como foi o meu fim da tarde, do dia 25 de Abril de 2018.

Tive a sorte de estar no dia 25 de Abril, claro, da semana passada, dia em que em Portugal celebrava-se a revolução dos cravos e em Moçambique, recordava-se o evento que marcou uma virada na luta pela independencia, na capital de uma província que presenciou os derradeiros momentos da luta de libertação nacional, um destes momentos, seguramente é a operação “No Górdio”.

Estava lá, nas barbas do Zambeze como “um louco ao fim da tarde” (M. Panguana) e a viver a magia de caminhar pelas ruas e roletes de uma cidade. Fiz coisas que um jovem intelectual de forte influência iluminista, gosta. Explorar no sentido rossiniano do conceito, as maravilhas da natureza.

Jessemusse Cacinda 300x300 - Um conceito de cidade, ainda ignorado
Jessemusse Cacinda

Caminhava pela avenida da Liberdade e de repente, vi um edifício escrito: “cinema 333”, cheio de pessoas e com uma imagem projectada sobre a tela. Bem emocionado, entrei para o interior do mesmo, na esperança de ver um filme, se calhar que falasse do 25 de Abril ou então do debate de ideias, havido em Portugal e nas colónias, a época dos acontecimentos. Já no interior do “cinema 333” descubro que afinal de contas estou numa Igreja, o que me colocou desolado.

Na hora recordei-me de vários aspectos que fazem realmente uma cidade, um deles, o facto de bairros de expansão que orgulhamo-nos de construir nas nossas cidades, não terem valas de drenagem, vias de acesso, casas de cultura e espaços par a prática desportiva. Oh que cidades sem jardins? Oh que escolas sem livros? Oh que cidades sem cidadãos? Enfim, questionava-me sem parar.

Continuei a marcha pela mesma avenida Eduardo Mondlane e de repente, escuto um barulho vindo de um pavilhão polivalente pertencente ao conselho municipal. Um ginásio, para ser mais concreto. Decido uma vez mais entrar para o interior do edifício. E lá encontro um jovem treinador de basketbol orientando duas equipas, uma feminina e outra masculina. Nas bancadas estava um número pequeno de jovens, a assistir os treinos e a debater sobre o que devia ser feito pelo basket da cidade. E de repente, percebo que entre o desolamento e a vontade, existe uma possibilidade. Uma possibilidade de pensarmos em como construímos nossas cidades e acima de tudo, o que esperamos de alguém que se considere citadino (conceito actual) e cidadão (conceito clássico). Mas a verdade é que não se pode fazer cidades, sem espíritos urbanos. E os espíritos pertencem aos homens.

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