O guitarrista que tocou minha infância

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“Até hoje mesmo assim eu não sei como explicar,

o que eu sou…o que eu sou?

Eu só sei que sou o homem deste mundo aqui,

o mundo sem preço.” — Mussa Rodrigues

Bastavam apenas uma moeda “mil meticais”, um metical na nova família, para qualquer um se deleitar de uma faixa ao vivo daquele que hoje o consideramos, sem dúvidas, O ícone da nossa música. Sua guitarra às costas, não convencional mas que exalava um som que à todos convencia; passava sempre acompanhado por alguém, quis o destino, não o deixar ver por onde trilhava, devido a deformidade biológica que não o permitia ver o quão feliz, sua música, fazia das nossas vidinhas.

Nós eramos petizes, eu e os outros personagens desta ficção a que chamam de infância, e nos era extremamente difícil, por qualquer condição que houvesse, viver um espectáculo de música ao vivo, em particular de uma música que nos tocasse a alma ao tutano. Tão difícil ainda quanto conseguir um metical para qualquer coisa que fosse preciso; das duas premissas justificam-se por vários motivos.

Japone Arijuane Poeta e jornalista moçambicano da província da Zambézia
Japone Arijuane
Poeta e jornalista moçambicano da província da Zambézia

Para ouvir e ver o nosso já perecido e eterno ícone tínhamos de correr certos riscos que hoje sinto terem sido de melhor forma recompensados, fazíamos de tudo: de espertezas a malandrices, de tudo aquilo que fosse garantia inequívoca para obter os benditos “mil meticais”, para que assim que a turnê escalasse o nosso bairro não perdêssemos o show.

Aquilo era realmente um SHOW! Um deleite que quase não se vê nos dias que correm. Delirávamos, nossos corpinhos arrepiavam de ternura e emoção; o trintar da guitarra mexia com a nossa essência e aquela música nos ensinava, essencialmente, o ser e a sermos nós enquanto nós próprios, pese embora nessa altura não entendêssemos este ser, ser zambeziano.

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Mussa Rodrigues é dono de uma música simplesmente complexa, cheia de saberes e sabores, de fragrâncias e filosofias, de vivências e essências, o nosso eterno ícone é abstractamente pragmático, um homem de causas e de uma humanidade imensurável, talvez seja por isso que o infortúnio se instalara tão sedo no seu cotidiano, aliás como é praxe aos exímios compositores desta pérola do índico.

“Até hoje mesmo assim eu não sei como explicar, o que eu sou, o que eu sou? Eu só sei que sou o homem deste mundo aqui, o mundo sem preço.” Na sua pura e ingénua alma de artista, o mundo se apresentava sem preço, o que julgo ser incompreendido pela maioria dos homens. Homens que vendo-o, ouvindo-o e testemunhando seu talento mantiveram-se sob olhar impávido da ignorância conivente; o que “até hoje mesmo assim eu não sei como explicar.”

O reconhecimento, este só se fez quando sua ária atravessou rios e com ela trouxe aquela “admiração”, não de todo digno mas que fez com que pairasse na memória de certos moçambicanos, aqueles que se identificaram com a faixa que salvaguarda a unidade não como destruição das partes, como nos ensinam certos políticos, mas como o respeito pelos outros: “ (…) Nós somos moçambicanos da província da Zambézia (…)”, pode dizer-se que houve uma certa popularidade que o fez notável neste país incerto, mas não muito merecedora.

Mussa Rodrigues era exímio compositor e interprete, trouxe para a cultura moçambicana valores que, de certeza absoluta, se manterão atemporais e quiçá universais e por isso precisa-se fazer mais para imortalizá-lo. Hoje quando ouço este guitarrista, ambulante de talento da minha linda infância, à tudo uma coisa fica clara: ele foi, sem dúvidas, de uma estirpe de compositores raros, de uma veia compositora e uma alma sublime acurado de uma linhagem filosoficamente-poética que muito influenciou a nossa forma de pensar o mundo e a nós (da província da Zambézia) em particular.

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As suas músicas, sempre com um cunho indagativo, preocupadas com aspectos existencialistas, da própria sociedade que os embala, estes elevem aos ares intelectuais, as metáforas que hoje nos poe muito a reflectir sobre o que somos?, onde vamos?, e como aqui viemos parar?.

Eu, enquanto amante das artes e também fazedor, julgo que só a arte é capaz de fazer uma revolução propriamente dita, recebo com algum agrado a iniciativas como as do município da cidade onde este astro viveu (Quelimane) em iluminar uma das suas ruas com o nome deste compositor, mas seria melhor ainda, para eternizar esta estrela da musica moçambicana, da província da Zambézia, fazer-se um CD de homenagem, como mereceram outros artistas, julgo que isto iria não só honrá-lo como também faria com que muitos, os que o não conhecem de carne e guitarra, os da nova geração de zambezianos, o admirassem.

De Japone Arijuane

Poeta e jornalista moçambicano da província da Zambézia.

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