Beira

Andar de “chapa-cem” na Beira: Um acto de coragem, talento e artes marciais

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Coragem, talento e artes marciais são exigências indispensáveis para circular na cidade da Beira, principalmente quando se está na condição de pedestre. Era suposto que na segunda maior cidade de Moçambique, Beira, província de Sofala, a disponibilidade de autocarros suficientes para dar vazão a densidade populacional ao invés de dois ou três que por aqui circulam. Porém, aqui é preciso coragem para enfrentar as bichas que perfazem figuras geométricas não incluindo circunferências, nem triângulos e trapézios.

As vezes as pessoas são obrigadas a escrever abecedário mesmo sem se perceberem de tal acto. Por uma vista aérea, se parece muito aos desfiles de abertura de festivais de cultura ou campeonatos desportivos onde pessoas desenham coreograficamente imagens e dizeres.

Aqui é preciso ter coragem de ficar em pé por mais de quatro horas à espera de um pequeno Toyota Hiace de 16 lugares.

É preciso ter coragem para ser entulhado, apiloado, torturado, assediado, beijado, abraçado, pegado as bundas, acariciado por pessoas do mesmo sexo e por opostos. E preciso coragem para aceitar ver-se comprimido e desafiar uma das mais famosas leis da física: “dois corpos ocupam mesmo espaço no mesmo tempo”. Mentira! Na Beira três corpos ocupam o mesmo espaço, no mesmo tempo.

Todos os dias as pessoas vivem naquela condição que propiciam a acidentes de viação daqueles tipos cómicos mas revoltantes: “Acidente de transporte semi-coletivo de passageiros de 15 lugares mata 16 pessoas e fere outras 10”.

 Talento! Infelizmente, na Beira, ter talento para subir “chapa” é um item muito importante. Se você é um cidadão sem talento para entrar no interior de autocarros ou minibuses, não vale a pena vir viver a Beira. Você ainda não esta devidamente preparado.

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Antes de mais nada, você precisa estar preparado fisicamente: Ser mais ágil e flexível. Dedicar-se as artes circenses ou, ao menos, ensinar o seu corpo a ser submetido a situações loucas: “passar por espaços de natureza impossível, muito apertados”.

Artes marciais! O cinema chinês e o japonês proporcionam experiências e estratégias para derrotar o inimigo, embora o moçambicano ao lado seja só mais uma vítima. Por uma questão de irmandade recomendo que assistam alguns filmes de Jet Lee: “O mestre das armas”; Jackie Chan: “Uma viagem pelo mundo por 80 dias”; Bruce Lee: “The enter of the dragon” e, Donny Yeen: “The Ipman”. Era preponderante que recomendasse o Rambo IV, mas por razões de segurança para impedir que algumas pessoas andem com catanas e armas de fogo para tomar chapa, não o posso fazer.

Não importa a idade, condição física, extrato social ou grau parentesco – quando se trata de tomar chapa tudo isto não importa. Porém, o que nos torna únicos é o poder de perdoar um ao outro. Porque aqui a gente se amassa, se bate, se roça, se aperta, se esmaga, se pisa (…) e, no final de tudo: se perdoa.

Pior, lutar para tomar chapa já virou um habito mesmo que o autocarro não esteja lotado, a gente se amassa, se bate, se roça, se aperta, se esmaga, se pisa (…) e se perdoa.

Em suma, você precisa de ter coragem para sair de casa para tomar chapa, talento para subir e artes marciais para livrar-se da falta de espaço e amigos do alheio. Este é um grito de socorro porque, se a vida for esta para sempre, assumiremos o lugar de violentos. Aliás, seremos obrigados a ter de assistir a novas recomendações de longas metragens as quais prefiro não citar.

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