A política de duas cores

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Moçambique está, aos poucos, a dispedir-se da política multicolor. As boas-vindas são direcionadas ao preto e branco, nada mais. Isso mesmo, não tens como estar em extremos muito diferentes. Simplesmente, tens que optar em abraçar aquele ou este. Uma autêntica dicotomia. Dizem que só assim é que a “paz” (calar das armas) prevalecerá em Moçambique, e a isto chamam de “descentralização”.

Mas isso é bom para a própria democracia? Quem é que, no final do dia, beneficia-se com isto tudo? Tem algum impacto directo na melhoria das condições de vida do povo? Ou é, como dizia Leo Tolstói, “mais uma conspiração desenhada para explorar e  sobretudo para corromper seus próprios cidadãos?”.

No jardim da nossa política cresciam rebentos promissores, mas agora, duas legiões movidas por interesses ainda desconhecidos, embora que previsíveis, uniram forças criando condições dos rebentos ou permanecerem sempre rebentos ou então, em caso de quererem sobreviver e desenvolver, abraçar uma das partes. Portanto, isso parece estar a desprezar todo um esforço até aqui empreendido em prol da verdadeira democracia em substituição da “frenacracia” brevemente em curso.

Pensamos ainda tratar-se de um acordo de dois velhos cavalheiros que entendendo haver diferenças claras de ocorrência de riquezas ao longo do país, decidiram  unir-se e, por igual (?), repartir os ganhos daí advindos, prejudicando, uma vez mais, o povo e engordando os seus bolsos. Visitando as primeiras discussões e modelos de descentralização propostos nota-se que este último está muito adulterado, ignora as contribuições da sociedade civil e notáveis académicos da praça procurando acomodar as ambições das duas partes interessadas.

O modelo de descentralização adoptado parece ser muito tendencioso, elitizado e urbanizado o que, em última instância, inibe a sua contribuição para a construção de uma sociedade pacífica, justa e inclusiva. Reconhecendo a diversidade, no seu sentido amplo, existente em Moçambique, é justo questionar: “como é que os interesses dos diferentes grupos étnicos estão acautelados neste modelo de descentralização?”. É importante que esteja porque caso contrário estariam a criar condições de uma inflamação social de dificil paragem.

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A história já nos ensina que quanto maior for a capacidade de exploração de uma determinada potência maior será o seu território. Isto é, há uma relação directa entre a capacidade de exploração e a extenção territorial. Talvez seja assim com as duas cores ora unidas. Estarão, individulamente, preparados de explorar fifty-fifty o país?

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