LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

Como homenagear Zena Bacar!

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Por: Momade Ali*

Zena Bacar passou pelo drama do alcoolismo. Passou pela IURD. A dor insuperável pela morte do único filho não cessa. A doença. Foi uma verdadeira descida ao Inferno. Ainda recuperou. Há muito que eu não tinha notícia dela. Vi-a cantar algures, aqui há tempos, mas era uma sombra daquela mulher que brilhara nos palcos do mundo. Ela redigia, no fundo, com o seu percurso e a sua tragédia, o roteiro pré-existente que conduz a acidentada carreira dos músicos moçambicanos.   Recordo-a aqui, com um misto de tristeza e de júbilo. Tristeza por vê-la partir, aos 68 anos, júbilo por ouvir estas extraordinárias músicas que ela compôs e cantou, por celebrar esta voz profundamente melancólica, muitas vezes dilacerada, exuberantemente bela, majestática, macua, universal e livre, do meu país. (Nelson Saúte, in: Jornal O País, edição de 27 de Dezembro de 2017, o negrito é meu).

Foi-se, com o ano de 2017, a voz emblemática dos Eyuphuro. A voz que representa a arte do canto e da dança da região litoral norte de Moçambique. Ícone consagrado inato! Calou-se a voz, o choro de Zena Bacar!

Nascida em 1949, na Ilha de Moçambique, província de Nampula, Zena Bacar ultrapassou  fronteiras e encantou o mundo! Seu brilho artístico brotou muito cedo, e apagou-se com ela sempre lutando com a vida!

Foi-se uma artista que dispensa qualquer tipo de credencias, em talento e volatilidade. Desde cedo, uma artista que se inscreveu, pelas suas canções, suas causas e experiências de vida, na rota da consolação social do seu meio. Que sociedade! Em vão! E foi-se Zena Bacar! E foi-se uma artista, um rosto incontornável na música moçambicana. Choramos e lamentamos. Mas como homenagear Zena Bacar?

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Possuidora de um repertório que venceu o tempo e gerações. Lutadora incansável, sorridente, sempre sorridente! Inspiradora de gerações e talentos. Escusado será desperdiçar tal legado!

É tempo de olharmos para a arte e a cultura do ponto de vista dos sujeitos, e não do lado sempre material! Pensar na arte e na cultura como um bem colectivo, precioso e inalienável! Pensar na segurança social dos sujeitos da arte e da cultura como uma responsabilidade do Estado, e de todos!

Tempo de parar com a precariedade social e económica dos sujeitos da arte e cultura, visível ao olho nú! Tempo de institucionalizar a arte e a cultura não somente nos gabinetes imponentes, mas nos corações e no dia-a-dia dos sujeitos! Na educação, na arte e cultura!

Tempo de colocar ao dispor dos turistas locais e estrangeiros, não apenas acomodação e restauração, mas a arte e a cultura. Os artistas, das mais variadas áreas!

Tempo de revitalizar e colocar ao dispor dos cidadãos as casas de cultura, os teatros, e os cinemas com monstras e cartazes imponentes. Com rostos dos artistas. Tempo de dinamizar o mecenato!

Tempo de homenagear Zena Bacar e outros tantos sujeitos da arte e cultura anónimos e vulneráveis com acções concretas, estruturantes e consequentes! Tempo de dizer basta à precariedade social dos sujeitos da arte e cultura! Tempo de (re) erguer-se culturalmente! É possível!

Uma homenagem à Zena Abacar e ao Feliciano Maricoa!

* Pesquisador

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