LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

Zambézia: Um governo apático

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A gestão do Governado de Abdul Razak se caracteriza, desde o seu primeiro dia de trabalho, pela inexistência de diálogo como estratégia política. Se algo está sendo contestado, impeça o acesso. Se o problema se manifestar, negue-o.

Decisões que afectam milhares de pessoas são tomadas arbitrariamente nos gabinetes sem consulta a especialistas, sectores sociais, comunidades impactadas e sem o mínimo esclarecimento sobre o que se pretende com as mudanças.

Será assim e ponto. Se não gostou e vier protestar, será reprimido – não importa a sua idade, porque criança  também precisa ser “corrigida”.

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Zito do Rosário Ossumane
zito.ossumane@jornaltxopela.com

A recente e não menos desastrosa, decisão da Governo de Abdul Razak acerca da denominada “repreensão” aos manifestantes do caso chupa sangue em Gilé e vários outros quadrantes da província demonstra isto. O recado é claro:  Quem ousar desafiar o poder será oferecido um tratamento rude e desproporcional. Apenas aceitem.

O baleamento de dois menores nos finais no ano passado em Gilé na província central da Zambézia e que chocou a comunidade internacional é a gota de água que fez transbordar o copo. Não é conhecida uma palavra de perdão aos familiares das duas vítimas mortais.

A este facto juntam-se vários outros que revelam um comportamento desrespeitoso, desumano e até sádico do Governo da Zambézia, pois esses cidadãos só puderam realizar a manifestação, porque lutaram, alguns morreram, pelo direito sagrado de discordar do governo e reivindicar.

A acção tomada sintetiza o pensamento da gestão actual do governo. Troca as coisas de lugar, como se a mudança de espaço físico resolvesse todas as questões. O problema é que uma política pública que impacta na vida das pessoas deveria, obrigatoriamente, ouvir pessoas e gerir com foco nelas. Chupa sangue é um “problema real” e que se não for estudado e solucionado poderá futuramente levar-nos a situações extremas de radicalismo como o que verifica-se em Mocimboa da Praia nos dias que correm. Pesquisadores acreditam que é o forma de manifestação do descontentamento da população com relação a forma da actuação do governo do dia.

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Então, será está a melhor forma de lidar com este problema? Um governo conivente com a carnificina da juventude negra periférica, que amplia prisões, está a mandar uma mensagem clara para a população pobre da província.

Isto faz-me lembrar de que quando o contexto social se torna tenebroso e as pessoas radicalizam discursos de ódio, se faz necessário recorrer a nossa ancestralidade e recuperar a contribuição de seres que tornaram a vida um pouco melhor, enquanto aqui estiveram.

Enfim, enquanto pautarmos por interesses mesquinhos, todos estaremos certos em nossos equívocos. Seremos todos contra a corrupção e devidamente corrompidos. Enquanto defender pontos de vista se confundir com fomentar o discurso separatista de ódio, através de argumentos enfurecidos e irracionais, o acto de cobrar ética dos dirigentes soa tão estranho e incoerente quanto sair de branco numa caminhada pela paz, depois de ter espancado o próprio filho.

Não somos mais os mesmos. Nós, moçambicanos contemporâneos do intenso 2018, estamos transformados. Atingimos um trecho da estrada que não permite a volta ao ponto de partida. Estamos cheios. Um país construído com vozes violentamente caladas aprendeu a gritar. É como gritamos nesses últimos anos e era tão bom que o Governo aprende-se a ouvir.

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