LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

Desorientação política da juventude e o islão radical como opção perigosa

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Por: Jessemusse Cacinda

Moçambique vive hoje, um momento de profundas transformações sociais e políticas. Jovens que nasceram na década de 1990 irão votar pela segunda vez, nas eleições autárquicas de 2018 e gerais de 2019. Maior parte da população moçambicana é essencialmente jovem e este grupo social, constitui o rosto dos problemas sociais que o país enfrenta. Entretanto, como que a remar contra maré, noto, baseando-se no último processo eleitoral (2013/2014) e na campanha eleitoral para as eleições intercalares acabadas de terminar em Nampula, que os partidos políticos ainda não conseguem desenhar manifestos eleitorais que focalizem a juventude como o centro gravitacional dos seus projectos de governação.

Diante desta situação de marginalização a que este grupo se encontra, protagonizada pelos principais actores do processo político nacional, a procura de opções aumenta cada vez mais. A antropóloga moçambicana Alcinda Honwana, verificou através das pesquisas que tem estado a realizar pelo continente africano, que os jovens tem estado a criar seus próprios espaços à par dos formalmente constituídos, uma vez que “estão conscientes da sua capacidade estrutural marginal e não confiam na vontade e capacidade do estado em encontrar soluções para os seus problemas. E nesta marginalização compartilhada, alguns jovens desenvolvem um sentido de identidade comum e de uma consciência crítica que os leva, por vezes, a desafiar a ordem política e social estabelecida”.

Sucede que estes espaços de reivindicação, variam em função da cultura dominante no espaço sociogeográfico, em que a juventude se encontra. Enquanto, outros exploram os espaços criados pela internet para desabafar as suas preocupações, outros participam em manifestações de rua em protesto às políticas que se lhes mostrem prejudiciais.

Estes movimentos, em alguns casos, conseguiram influenciar mudanças estruturantes na sociedade, tal é o caso do derrube das ditaduras durante o despoletar da chamada primavera árabe. Entretanto, o nível de frustração terá aumentado ao ponto de levar os jovens a acreditarem na possibilidade de se encontrar uma outra solução, que não seja, a de confiar o poder aos políticos. É aqui onde a implementação do direito islâmico se mostra como opção para boa parte de jovens africanos, que vivem em regiões com forte influência do islão.

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O recurso ao Sharia, defendida pelo salafarismo (uma forma de extremismo islâmico que propõe uma interpretação conservadora do Islão, fazendo da sharia a lei que dirige a vida política e social do estado e dos cidadãos) como um estilo de vida com suas leis e ciência e não como uma política, pode significar um refúgio à marginalização de que a juventude sofre.

A racionalidade que emperra nestas situações é de que, se a política dos homens não funciona, deixemos a Deus, a responsabilidade de administrar a vida dos homens. Ou seja, o desespero dos jovens pelo sofrimento de que passam no seu quotidiano, pode levar a que se juntem ou sejam subjugados por grupos que defendem o fundamentalismo islâmico, definido como o estado da submissão total a Deus. O sociólogo espanhol, Manel Castells, refere que uma das causas da tendência do desenvolvimento do fundamentalismo tem que ver com o progresso da sociedade em rede, protagonizada por contactos virtuais entre povos e que tem estado a mudar a estrutura identitária das sociedades modernas.

Quando despoletou o levantamento nos distritos de Mocimboa da Praia, Palma e Nangade em Cabo Delgado, levantou-se de imediato a hipótese de que os ataques eram coordenados por estrangeiros, assim como, moçambicanos que receberam bolsas de estudo para estudar em países árabes, entretanto, maior parte dos capturados pela polícia são moçambicanos e sem nenhuma escolaridade. Assim como, aquele que é tido como o líder do grupo em Mocimboa da Praia, ora foragido, é natural daquele distrito. Estas evidências demonstram que para além da rota de estudos no estrangeiro (comummente apontada), é preciso olhar para o interior da sociedade.

Em quase todas as cidades de Moçambique, por exemplo, maior parte dos proprietários de lojas, são praticantes do Islão e descendentes de árabes (indianos, por exemplo). Quando a região norte do país, passou a acolher refugiados africanos, na sua maioria praticantes do Islão, passaram imediatamente a controlar o comércio. Tanto os moçambicanos de origem asiática como os estrangeiros provenientes da região dos grandes Lagos, aparecem na sociedade como “pessoas bem-sucedidas”, o que faz com que constituam referência de construção de discursos apelativos para qualquer sindicato político ideológico que se sirva do Islão para atingir os seus objectivos.

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O que está acontecer na província de Cabo Delgado é um misto de manifestações que representam a insatisfação de determinados grupos em relação a distribuição da riqueza nacional. A utilização de líderes islâmicos nacionais para a sensibilização dos cidadãos sobre o sentido do Islão, como uma religião de paz e a definição de políticas púbicas viradas para a integração da juventude na vida económica do país, podem, constituir acções a ter em conta, para que uma vez, controlada (militarmente) a situação, outros jovens não voltem a ser instrumentalizados a aderir a estes grupos.

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