O colapso do longo reinado de Mugabe: ilações para os países da região austral de África – Danilo Tiago

em OPINIÃO por
Danilo Tiago

Quando Mugabe ascende ao poder na década 80 muitos de nós ainda nem projectos de filhos dos nossos pais éramos. Um preso político, militante da primeira linha da ZANU – PF ascende ao poder, era o início de um reinado que viria a perdurar ao longo de quase quatro décadas.
Aos 93 anos, Robert Mugabe é considerado o estadista mais velho no poder e um dos chefes de Estado que mais tempo dirigiu os destinos de uma nação.
Entre suspeitas de viciar resultados das eleições com o fim de perpetuar – se no poder e hostilizar os seus opositores, Mugabe viria a tornar – se ditador. Passou a combater a oposição como nunca, ordenando prisões arbitrárias, tornando – se num verdadeiro Rei Luís XIV, o rei sol de África, o “Le etat ces’t moi” contemporâneo.
Nem as sanções económicas impostas pelo Ocidente o demoveram de levar avante os seus planos de manter – se no poder: com a sua saúde debilitada restava- lhe “entronizar” a sua musa amada Grace.
Foi este o grande erro de “mad Bob”. É que há quase 40 anos (se contarmos com o início da luta armada desencadeada pelos Zimbabueanos para a libertação da pátria) que outros militantes da ZANU – PF aguardam o cargo mais apetecível do Zimbabué e aguardar mais 4 décadas seria uma desfeita que nenhum militante estaria disposto a suportar.
A Classe castrense entra em cena e aos poucos vai se impondo numa terra martirizada que Robert havia transformado em sua propriedade privada.
Mugabe podia ter saído pela porta grande e continuar a gozar o estatuto de PAI DA NAÇÃO como Julius Nyerere, Nelson Mandela e K. Kaunda, mas optou pela via mais fácil: sair pela porta dos fundos, escorraçado pelos seus próprios sequazes, aqueles que um dia o adularam, o veneraram, o bajularam.
José Eduardo dos Santos outro dos dirigentes que mais tempo ficou nos destinos do seu país parece ter previsto um fim similar ao do Robert Mugabe vai daí que preferiu antecipar – se numa jogada que se pode considerar de mestre. Embora tendo deixado um país economicamente “destruído” onde o fosso entre ricos e pobres é cada vez maior e o ódio que uma boa parte da população destila contra si, valeu Zedu ter saído pelos próprios pés, evitou o pior.

Faz bem que o seu sucessor João Lourenço organize a casa, destruindo as teias de aranha que Zedu criou. A oligarquia criada por José Eduardo dos Santos acabou sendo destruída com a rescisão do contrato que o canal de televisão estatal tinha com as duas firmas (WestSide e Semba Comunicação) detidas maioritariamente pelos filhos de Zedu nomeadamente José Paulino dos Santos “Coreón Du” e Welwitshea “Tchizé” dos Santos. A destituição da “Rainha” Isabel dos Santos como PCA da SONANGOL foi o gesto mais visível da decisão de João Lourenço de expurgar tudo o que é vestígio oligárquico de José Eduardo dos Santos.

Mas se João Lourenço pensa que esses gestos são suficientes para irradiar tudo o que está ligado a Zedu em Angola está redondamente enganado, há mais tentáculos de Zedu, mais “amigos” e sequazes de Zedu, é preciso descobrir, destapar, expor e por fim expurga – los de modo a montar melhor a sua equipa. Depois desse exercício João Lourenço deve tentar no mínimo reduzir os altos índices da pobreza em Angola, reduzir o fosso entre ricos e pobres, ganhar a confiança dos angolanos, incentivar investidores estrangeiros a implantar firmas em Angola de modo a empregar mão – de – obra local e reduzir assim o desemprego e os índices de criminalidade daquele país do atlântico. Só assim João Lourenço conseguirá afastar o fantasma da fraude eleitoral que o levou ao poder e cuja oposição reclama ter havido.

Queiramos ou não, a situação do Zimbabué vai influenciar a região Austral de África onde Moçambique se encontra inserido.

A começar pela África do Sul cujo Presidente Jacob Zuma não goza de boa reputação e popularidade depois dos escândalos de corrupção em que está metido. Não é por acaso que Jacob Zuma sendo Presidente em exercício da SADC, ao ter efectuado chamada ao seu homólogo Zimbabueano o tranquilizou que a SADC condenava o golpe de estado e que esta organização está do seu lado. Isto é uma jogada de um autêntico “Chico Esperto”, é que se Mugabe levar a promessa de que a SADC está do seu lado avante e continuar firme na decisão de manter – se no poder uma vez que foi eleito em sufrágio universal, isto aproveita o regime de Zuma na medida em que irá retrair qualquer revolta popular na África do Sul visando a destituição de Jacob Zuma: é o efeito borboleta na sua forma impura. Mas Mugabe vai a tempo de ceder as pressões da classe castrense, de aceitar as condições impostas por eles, de manter – se seguro e vivo num país que ajudou a libertar do jugo colonial. Muito mais do que isso, está nas mãos de Mugabe evitar um banho de sangue num país que ele mesmo martirizou, oprimiu a oposição, reprimiu quem pensasse diferente dele. Basta fazer ouvidos de mercador a Jacob Zuma e ceder as exigências dos militares. Quem sairá a ganhar é o povo do Zimbabué.

O futuro ainda reserva – nos muitas surpresas. E seja como for, um facto é certo: Mugabe sai do poder sem honra e nem glória.

Shallom

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