LIBERDADE & INDEPENDÊNCIA

A força do boato na província da Zambézia: uma reflexão sociológica do fenómeno dos “chupa- sangue ” no distrito de Milange

em DESTAQUES/OPINIÃO por

Benone Mateus, é Jornalista, cronista, pesquisador, licenciado em ensino de História com habilitações em Geografia pela Universidade Pedagógica. Delegação de Niassa.

Av-Maputo-em-Quelimane-Chupa-Sangue-300x150 A força do boato na província da Zambézia: uma reflexão sociológica do fenómeno dos “chupa- sangue ” no distrito de MilangeO boato refere-se a informações avançadas por indivíduos de má-fé, com intenção denegrir, desinformar e amedrontar pessoas que vivem numa circunscrição geográfica, com objectivo primordial deixar estas comunidades em pânico ou sujar o bom nome da empresa ou liderança dessa comunidade. Essa mentira que vira realidade na mentalidade dos habitantes, tem os tornado bastante confusos porque a informação, é transmitida com muita rapidez e muitos são os que consomem-na. Aliás, como é uma novidade que traz medo e o saldo dela é a morte, a mesma corre de forma tão rápida, com a finalidade de salvar (entenda-se proteger a maioria).

Jean-NoëlKapfererapudIASBECK(2000), entende que, um boato pode surgir como compensação a um desejo frustrado de alguém ou de um grupo social, da necessidade de tornar públicoalguma confidencialidade, de interesses perturbadores de uma ordem que não convém, das fantasias (ou fantasmas) que povoam as narrativas míticas de uma cultura, de mal entendidos, de interpretações distorcidas.

A sociedade desde nos tempos longínquos tem-se deparado com várias informações propaladas por indivíduos que na realidade padecem de algumas doenças psíquicas, porque entende-se que, a notícia ora em destaque naquele momento, se procurado saber se existe alguma vítima do caso, muitos limitam-se em “ouvi dizer”, “dizem na comunidade X aconteceu”, “familiar de beltrano sofreu…”ou “alguém está hospitalizado, etc….” De tantas justificativas de modo a convencer ao ouvinte avançadas aos que chamo de “contribuintes do boato ou dementes”, em nenhum momento diz vi de perto, se caso haja um, pensa-se também na probabilidade de ser outro demente que queira sustentar mentiras que acha fazendo isso tornar-se-á pioneiro na comunidade a ver um chissanduka[1] ou um chupa-sangue. Essas informações têm sido motivo de conversas nos bairros e regulados desse distrito.

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Para dar aso a este fenómeno, Carlos Serra no seu artigo intitulado “Mudança social e crenças anómicas em Moçambique” lembra que, no período colonial, em Novembro de 1947, perante o desaparecimento de várias crianças, surgiu nas aldeias do Luabo o boato de que elas eram comidas por um europeu. Este fenómeno de suposta antropofagia fez com que muitos trabalhadores abandonassem as plantações da Sena Sugar Estates em favor das da Companhia do Boror.

Na opinião de SERRA (2008), a crença no chupa-sangue ganhou raízes nas comunidades rurais zambezianas em 1978-1979, quando se conjugavam o ensaio frelimiano autoritário do homem novo, as campanhas de vacinação e de doação de sangue, a hostilidade rodesiana e as emissões de uma rádio anti-FRELIMO no Malawi. Segundo o autor, a crença parece ter nascido na Zambézia no fim de 1974 ou no princípio de 1975, quando os grupos dinamizadores se formavam. Terá, então, corrido o boato de que os Grupos Dinamizadores (GDs) iriam “chupar” o sangue às pessoas.

Portanto, essas pessoas acreditavam que, à noite, seres estranhos penetravam nas palhotas e lhes “chupavam” o sangue com seringas, pela cabeça, enquanto dormiam. Milhares de Zambezianos passaram, então, noites em claro, gritando, batendo palmas, agitando panelas e outros utensílios para afugentar os anamanula (sugadores de sangue, “vampiros”). Fazia-se fé em que o sangue era destinado ao fabrico de uma nova moeda, à consolidação da Independência nacional e ao abastecimento dos hospitais.

Em consonância com a citação acima, actualmente comunidades das zonas rurais deste Distrito como: Dulanha, Sozo, Tengua, Zalimba, Ponderane, Dachúdua, a vila sede, só para citar alguns exemplos, são obrigados a dormir cedo de modo a passar o resto da noite em branco ou por outra, tem feito escala de patrulha ou vigília dos homens na comunidade com vista a proteger ou a inviabilizar os trabalhos dos ditos “anamapopa-magazi”. Actualmente, nas comunidades deste distrito doentes com sintomas de malária ou anemia, acham ser vítimas dos chupa-sangue. Ou por outro lado, quando alguém morre de forma súbita, a justificação tem sido mais uma vez aos “anamapopa-magazi”.

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Sou de opinião que, nunca existiu esse fenómeno, porque as minhas suposições ainda são refutadas, sob a hipótese principal, se o fenómeno é tão alastrado, tudo indica que alguém já viu um individuo vitima dos chupa-sangue. E como apresentei no início do texto nenhum entrevistado, afirmou ter visto alguém ou seu próximo que fora vitima dos anamapopa. Com isso, concluo que, esse fenómeno mesmo possua ingredientes latentes que as tornam tão sedutoras quanto desafiantes não passa de uma mentira.

Fontes:

SERRA, Carlos.Mudança social e crenças anómicas em Moçambique.2008.

IASBECK, Luiz Carlos A. Os Boatos – além e aquém da notícia: versões Não-Autorizadas da Realidade. 2000.

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